Caroline Romeiro (*)
A discussão em torno do Artigo 69 do novo Código de Ética e de Conduta da(o) Nutricionista ganhou força nas redes sociais nas últimas semanas. Entre críticas e interpretações diversas, um ponto central precisa ser compreendido: o debate não trata apenas de estética, mas de saúde mental, responsabilidade profissional e do impacto que conteúdos sobre corpos “perfeitos” pode gerar na vida das pessoas.
Estudos científicos demonstram associação consistente entre exposição intensa a conteúdos corporais idealizados, insatisfação corporal, ansiedade, baixa autoestima e transtornos alimentares, especialmente em ambientes digitais altamente visuais. A lógica algorítmica das redes sociais potencializa comparações constantes, reforçando padrões muitas vezes inalcançáveis ou artificialmente construídos.
Pesquisas recentes mostram que conteúdos focados em emagrecimento extremo, “fitspiration” e idealização corporal estão relacionados ao aumento de comportamentos alimentares disfuncionais e sofrimento psíquico.
Nesse contexto, o Código de Ética busca trazer reflexão sobre a forma como resultados físicos são apresentados ao público, sobretudo quando há risco de indução a promessas irreais, comparações inadequadas ou associação entre valor pessoal e aparência corporal.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a evolução científica da Nutrição também trouxe ferramentas clínicas relevantes. Exames laboratoriais, avaliação de composição corporal, bioimpedância e acompanhamento de parâmetros metabólicos podem — quando utilizados com responsabilidade técnica e contextualização adequada — representar importantes instrumentos de cuidado em saúde.
O desafio ético não está na existência dessas ferramentas, mas na maneira como elas são comunicadas ao público. A nossa categoria tem debatido nas redes sociais a necessidade de diferenciar educação em saúde de exposição excessiva de corpos, métricas e resultados individualizados.
Mais do que restringir a atuação profissional, a discussão revela um amadurecimento necessário sobre o papel da Nutrição na era digital. Em um cenário marcado por filtros, manipulação de imagens e intensa pressão estética, torna-se fundamental equilibrar ciência, responsabilidade ética e cuidado com a saúde mental coletiva.
A Nutrição baseada em evidências pode — e deve — ocupar as redes sociais, mas sem perder de vista que saúde não pode ser reduzida a curtidas, números ou padrões corporais irreais.
(*) Mestre em Nutrição Humana, coordenadora técnica do Conselho Federal de Nutrição (CFN) e docente da Universidade Católica de Brasília (UCB)