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colaboradores, Política

Corra que a polícia vem aí 22!

Depois de “Dark Horse” produtora BolsoMaster prepara novo lançamento

  • Júlio Miragaya
  • 19/05/2026
  • 08:00

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Bia Kicis: deputada está entre os “financiadores” de Dark Horse. Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

Júlio Miragaya (*)

Quatro anos após ter lançado a versão tupiniquim de “A fantástica fábrica de chocolate”, o novo lançamento da produtora BolsoMaster será “Corra que a polícia vem aí 22”. As investigações da PF sobre as relações promíscuas de Flávio “Rachadinha” com o banqueiro mafioso Daniel Vorcaro promoveram um verdadeiro corre-corre de parlamentares do PL e do Centrão, apavoraram o mercado financeiro e deixaram desnorteadas as hordas bolsonaristas.

As justificativas apresentadas pelo candidato do clã Bolsonaro seriam risíveis se não fossem pura canalhice. Inicialmente, a alegação de que a produção do “filme” Dark Horse, cinebiografia sobre seu pai, não recorreu à Lei Rouanet, demonstra total ignorância em relação à lei, pois ela não financia filmes. Faz apenas uso da tosca narrativa bolsonarista que busca vincular a Lei Rouanet ao financiamento de artistas de esquerda.

Já a declaração de que os R$ 134 milhões acertados com o mafioso Vorcaro para a produção do filme (R$ 61 milhões já repassados) era dinheiro privado e que, portanto, não teria havido uso de recursos públicos, não se sustenta. É uma mentira deslavada. Grande parte da fortuna acumulada pelo ex-banqueiro vem exatamente de operações financeiras fraudulentas envolvendo recursos públicos, como a que quebrou o Banco Brasília (público), e as que lesaram os institutos de previdência (públicos) do Rio de Janeiro, Amapá, Amazonas e o de Campo Grande (MS) e de outros quatro municípios.  

Ademais, denúncias revelaram que o filme recebeu pelo menos R$ 7,7 milhões de emendas parlamentares de deputados federais, estaduais e vereadores do PL, Republicanos e Partido Novo de São Paulo, recursos do orçamento público. O dinheiro do povo paulista era repassado para entidades picaretas como o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Conhecer Brasil Assessoria e a Academia Nacional de Cultura (ANC) e daí para o “filme”. 

Bolsonaristas de primeira linha como Bia Kicis, Alexandre Ramagem e Carla Zambelli estão entre os “financiadores” de Dark Horse, mas os R$ 2 milhões em emendas da União que o deputado federal Mario Frias (PL) destinou para o Instituto Conhecer Brasil é escandaloso, pois ele é o roteirista e, junto com Eduardo “Bananinha”, produtor executivo do filme. Cabe a pergunta: Como assim, “Rachadinha”, não se fez uso de recursos públicos? Sim, o fez, só que não de forma legal, mas via fraudes. 

Também surpreendeu o orçamento milionário do “filme”. Apenas os R$ 134 milhões acertados com Vorcaro (excluindo, portanto, o dinheiro de emendas parlamentares e outras fontes) é quatro, cinco ou até dez vezes maior que os orçamentos de produções premiadas como ‘Ainda Estou Aqui’, ‘Central do Brasil’, ‘O Auto da Compadecida’, ‘Cidade de Deus’ e o ‘Agente Secreto’.

No entanto, o que é mais surpreendente e escandaloso é que, provavelmente, a maior parte dessa montanha de dinheiro não foi pra filme algum. Flávio Bolsonaro afirmou que a verba foi integralmente destinada ao “Havengate”, um fundo offshore com sede no Texas, que alega ter repassado para a produtora norte-americana “GoUp Entertainment LLC”, mas o deputado, roteirista e produtor executivo Mario Frias afirma que não recebeu um tostão desse dinheiro.

E os indícios são visíveis. Segundo o Sindicato dos Artistas de São Paulo (Sated-SP), são inúmeras as denúncias de profissionais e figurantes contra a produtora do filme em São Paulo, tais como contratação informal, longas jornadas, pagamentos abaixo das tabelas de mercado e com atraso. Já foi servida comida estragada e a alternativa não tem passado de um sanduíche fajuto, um suquinho e uma paçoca (para jornadas de até 8 horas); há a cobrança de R$ 10 dos figurantes nos deslocamentos em ônibus fretado e o registro de revistas abusivas. 

Para não fugir ao script, calotes foram dados em inúmeros fornecedores, e a produtora “GoUp Entertainment LLC” não tem cumprido obrigações legais básicas com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), operando sem registro oficial, sem contratos apresentados, sem vistos de trabalho para o elenco estrangeiro e sem repassar direitos trabalhistas a técnicos brasileiros.

Mas, se a produção é uma farsa, para onde estava indo essa montanha de dinheiro oriunda de fraudes aos cofres públicos? É o que a PF está apurando. Provavelmente, era destinada ao Caixa 2 da campanha de Flávio “Rachadinha”. Se as denúncias e investigações resultarem no colapso da candidatura do filho 01, a burguesia brasileira se verá obrigada a encontrar um novo nome para enfrentar Lula ou escolher um dos dois candidatos de direita já lançados e destinados a fazer figuração: Ronaldo Caiado e Romeu Zema, ambos com enormes “telhados de vidro”. 

Podemos estar no limiar de estarmos assistindo “Dark Horse” se transformar em “Scary Horse”, um verdadeiro filme de terror para a direita brasileira. 

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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Júlio Miragaya

Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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