A saúde do DF em seu labirinto

BSB Capital21/01/2022 às 19:07, Atualizado em 21/01/2022 às 19:07

E a saída passa pelo estabelecimento de políticas públicas efetivas, planejamento sério no lugar dos improvisos e medidas emergenciais em situações previsíveis

General Gislei Morais de Oliveira Iges-DF
General Gislei Morais de Oliveira, ex-presidente do Iges-DF. Foto: Iges-DF/Divulgação

Não surpreendem o anúncio da demissão do presidente do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal, o IGESDF, e os rumores de nova mudança no comando da Secretaria de Saúde nesta sexta-feira (21). Essa impermanência e sensação de desgoverno na Pasta da Saúde nos acompanha desde o começo do atual governo.

Não surpreendem porque os fatos tornam óbvio que a gestão da saúde no DF vai mal: estão se repetindo agora problemas que vimos no começo da pandemia da covid-19, no início de 2020. Lá se vão dois anos, milhões de reais gastos com as estruturas de lona e divisórias dos hospitais de campanha. E faltam leitos, respiradores, equipamentos de proteção individual e profissionais nos hospitais da rede pública.

Com a disseminação sem freios da variante ômicron, sobram filas nos pontos de testagem – que deveria estar sendo feita de forma maciça e constante desde o início da pandemia, mas não foi. As Unidades Básicas de Saúde estão saturadas, bem como as Unidades de Pronto Atendimento. 

E os hospitais estão correndo para executar um “plano de mobilização de leitos”, que foram desmobilizados em novembro de 2021. Naquele momento, no dia 16 de novembro mais precisamente, o primeiro ministro francês, Jean Castex, deu uma entrevista em que dizia que a variante se espalhava por seu país “na velocidade de um raio”.

Não era segredo para ninguém que, como ocorreu nas outras ondas da covid-19, o fenômeno se repetiria aqui. E, ainda que tenha avançado a vacinação e a maioria dos que se contaminam não desenvolvam sintomas graves, era de se esperar que, pela quantidade de pessoas contaminadas em velocidade tão rápida, fossem necessários leitos, respiradores, medicamentos e profissionais de saúde preparados para dar a assistência necessária à população. Mas ninguém tomou nenhuma dessas providências e estamos à beira de um novo colapso nas unidades de saúde.

Não é surpresa a saída do presidente do IGESDF. Surpreendente é que ainda se mantenha esse modelo de gestão que não cumpriu com os objetivos prometidos quando da sua criação. Depois de escândalos seguidos, suspeitas de corrupção, prisões de gestores, sucessivos aumentos de repasses de verbas públicas que são desviadas das demais unidades públicas de saúde sob a gestão da Secretaria de Saúde do DF.

Não seria surpresa se, na sequência da demissão do presidente do IGESDF, o secretário de Saúde fosse substituído mais uma vez – já tivemos três substituições antes. O que é assustador é ver esse descaso com a gestão do sistema público da saúde em meio a uma pandemia que já tirou a vida de mais de 10 mil moradores do DF, fora moradores de outras localidades que foram atendidos aqui.

A impressão é de que os responsáveis pela gestão pública da saúde andam de olhos vendados dentro de um labirinto, batendo as cabeças nas paredes. Mas todo labirinto tem saída. E a saída deste passa pelo estabelecimento de políticas públicas de saúde efetivas, planejamento sério no lugar dos improvisos e medidas emergenciais em situações previsíveis, reincorporação à Secretaria de Saúde das unidades entregues ao IGESDF, blindagem da gestão da saúde de ingerências politiqueiras e corrupção, nomeação de gestores que conheçam o sistema de saúde do DF e competentes para administrar esse patrimônio fundamental para as vidas de todos nós.

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** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasília Capital

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