Tributo a Thomás Muntzer

Julio MiragayaPor ,21/12/2021 às 15:13, Atualizado em 21/12/2021 às 15:13

Um padre esquecido, embora tenha tido, em sua época, expressão tão grande ou maior que Lutero, que foi, junto com o imperador prussiano Frederico e Wagner, uma das três referências de Hitler

Thomás Muntzer
Thomás Muntzer

Em 27 de dezembro de 1521, há 500 anos, três anabatistas discípulos de Thomás Muntzer (Nicolas Storch, Thomas Dreschel e Marcus Thomae), conhecidos como “Os Profetas de Zwickau”, chegaram a Wittenberg fugindo da violenta repressão movida pelos nobres e clérigos saxões. Eis um fato histórico pouco conhecido. 

Em contraste, em 31 de outubro de 2017, ocorreram mundo afora inúmeras atividades comemorativas do 5º centenário da fixação das 95 teses de Martinho Lutero na igreja do castelo de Wittenberg. Em 1517 Lutero plantava a semente da Reforma Protestante, um amplo movimento de oposição à Igreja de Roma e o poder papal e que é hoje uma das principais religiões do mundo, com cerca de 800 milhões de adeptos.

Ocorre que a história contada (e comemorada) é sempre a dos vencedores, restando aos perdedores, por mais gloriosa que tenha sido sua luta, o ostracismo. Trago aqui a lembrança e a singela homenagem a Thomás Muntzer, um padre esquecido, embora tenha tido em sua época expressão tão grande ou maior que Lutero. 

As Guerras Camponesas na Alemanha

Em sua memorável publicação “As Guerras Camponesas na Alemanha” (1850), Friedrick Engels lembrou que as rebeliões camponesas se intensificaram na Europa ao longo dos séculos XIV e XV, envolvendo Flandres; França; Inglaterra de John Wyclif e a Boemia, de João Huss, espalhando-se no início do século XVI por toda a Europa Central, da Hungria, de Jorge Dosza, até a Áustria e a Alemanha, com seus 300 principados.

Entre 1524 e 1526, centenas de castelos e mosteiros foram incendiados pelos camponeses e mais de 200 mil deles foram mortos. Num momento em que os camponeses e a plebe lutavam contra a opressão da nobreza e do clero, Lutero, após a publicação de suas teses, foi progressivamente abrandando-as, buscando o apoio dos príncipes e nobres. 

Começou contestando as teses anabatistas de separação de Estado e Igreja e contra o batizado de crianças (pela livre opção) e depois buscou justificar a exploração dos camponeses afirmando que “a existência de senhores e servos era a vontade de Deus” e que “a uma vida de sofrimento aqui na terra, sucederá a redenção no céu”.

Exploração

Mas a pregação de Muntzel e dos anabatistas ia muito além de mudanças na liturgia da igreja e os abusos de bispos, pois contestavam abertamente o que Lutero abençoava: a extrema exploração e opressão dos camponeses e plebeus pelos príncipes alemães, a nobreza e a igreja. 

Como bem disse Engels, “as guerras religiosas do século XVI tratavam-se, sobretudo, de interesses materiais, de classe” e que “os nobres, enriquecidos com a expropriação das terras e bens do clero romano, estavam satisfeitos, pois a Reforma lhes servira bem”. Em Zwickau, Muntzer pregava que “o cristão não pode escravizar-se a uma doutrina de predestinação, deve estabelecer o Reino de Deus na terra, pois depois da morte não há céu nem inferno, não há outro diabo senão a cobiça dos homens”. 

Perseguição

Começa então uma perseguição implacável a Muntzel e seus discípulos anabatistas. Em julho de 1524, Lutero, já convertido, segundo Muntzel, em lacaio dos poderosos, escreveu a “Carta aos Príncipes da Saxônia sobre o espírito rebelde”, na qual dizia que “Os príncipes conhecerão o espírito da plebe, que não podem governar senão pela violência” e que “Não há nada mais peçonhento e demoníaco que um rebelde. Hordas de camponeses ladrões, temos que degolá-los, matá-los, como se mata a um cão raivoso”. 

Muntzer, foi decapitado em 27 de maio de 1525 em Muhlhausen. O legado de Lutero foi uma religião tão intolerante quanto era a igreja romana (com as Cruzadas e a Inquisição). Com concepções do tipo “povo escolhido” e “destino manifesto”, a consequência foi a benção ao genocídio indígena e a escravização dos africanos. Em 1543, Lutero escreveu “Sobre os judeus e suas mentiras” e, não por acaso foi, junto com o imperador prussiano Frederico e Wagner, uma das três referências de Hitler.


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(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasília Capital

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