Sem vacina, sem leito e sem médico

sindmedicoPor ,15/03/2021 às 9:00, Atualizado em 15/03/2021 às 7:46

O DF e o Brasil precisam de ampla vacinação. É hora de medidas humanitárias, começando pela imunização de todos os profissionais de saúde

No dominó, quando uma peça cai, outras são derrubadas. Na corrida pela vacinação contra a covid-19, quando a gestão deixa de priorizar médicos e outros profissionais, a população fica desassistida.Médicos não vacinados adoecem. Enfermeiros não imunizados também.

O efeito é o mesmo do dominó. Só que pessoas não são peças. Na vida real, quando um médico fica doente e sai da linha de frente da batalha contra o novo coronavírus, algum paciente, já sem acesso a leitos, fica, também, sem atendimento. E o SUS da integralidade, da universalidade e da equidade vai ficando assim: sem vacina, sem leito e sem médico. 

Levantamento feito pelo SindMédico-DF nesta semana aponta que três a cada quatro médicos do DF não estão vacinados, tanto da rede pública quanto na rede privada. Isso significa que pelo menos 20 mil trabalhadores da área estão colocando em risco a própria vida para não desassistirem a população. 

O pior é que, mesmo tendo conhecimento dessa conta, já que a matemática é transparente, ainda não há qualquer previsão da compra de vacinas no âmbito local. Seguimos, portanto, sem um calendário de vacinação sério e focado na prioridade de imunizar os profissionais de saúde paralelamente aos idosos. 

Mais expostos do que o resto da população à covid-19, a tendência é de que as equipes da saúde desenvolvam as formas mais graves da doença: prejuízo para a assistência dos cidadãos e perdas irreparáveis para os familiares e amigos. 

No Brasil, em 2005, o Ministério do Trabalho e Emprego publicou a Norma Regulamentadora nº 32 (Portaria nº 485), que trata da saúde e segurança no trabalho em serviços de saúde e estabelece imunizantes, de forma gratuita, a médicos, enfermeiros, auxiliares etc. das redes pública e privada. Agora, o próprio Plano Nacional de Vacinação contra a doença coloca os profissionais da área como prioridade.

Não há dúvidas sobre os riscos que correm os que atuam no âmbito da saúde das redes privada e pública neste momento. Pacientes circulam do ambiente público para o privado e vice-versa. E também não faltam evidências das vantagens de imunizar este grupo: cuidar do bem-estar deles é zelar pela saúde da população. 

Análise divulgada em janeiro pela Rede de Pesquisa Solidária, que reúne mais de cem pesquisadores de instituições como a USP e a Fiocruz, aponta a necessidade de, além de imunizar os trabalhadores que atuam no front da covid-19, vacinar todos os que trabalham em consultórios, clínicas, laboratórios, serviços de reabilitação, centros de diálise, hemocentros, ambulâncias e unidades móveis, além dos profissionais recrutados para postos ampliados de vacinação. 

Em junho do ano passado, quando ainda havia UTI no Distrito Federal, dados dos boletins da Secretaria de Saúde apontavam que ao longo de 50 dias, diariamente, 18 médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, auxiliares e outros profissionais das redes pública e particular testaram positivo para a covid-19. 

Como está essa situação agora, no auge da transmissão e em meio a um colapso da saúde? Com pouco mais de 5% de toda a população do DF vacinada, temo que o cenário seja muito pior do que no ano passado. 

Nesta semana, o Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), referência para tratamento do novo coronavírus, decretou bandeira vermelha. A ocupação de leitos em toda a rede, tanto pública quanto particular, ultrapassa os 90%. As variantes da doença comprovadamente já estão na capital. 

O momento é crítico. E o efeito dominó é visível. Por isso, faço aqui um apelo às autoridades públicas: o DF e o Brasil precisam de ampla vacinação. É hora de medidas humanitárias, começando pela imunização de todos os profissionais de saúde.

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