Fome atinge 33,1 milhões de brasileiros

BSB Capital 08/06/2022 às 13:30, Atualizado em 09/06/2022 às 12:48

Segundo um levantamento divulgado nesta quarta-feira (8) são14 milhões passando fome a mais que em 2020. País regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990

Foto: Reprodução

Da Redação

A fome avança pelo Brasil. Levantamento divulgado, nesta quarta-feira (8), mostra que o país soma atualmente cerca de 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer diariamente, quase o dobro em relação ao estimado em 2020. São 14 milhões de pessoas a mais passando fome, segundo os dados da 2º Inquérito Nacional sobre  Insegurança alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN).

O 1º inquérito foi divulgado em abril do ano passado e estimava em 19 milhões o total de brasileiros que não tinham nada para comer em 2020, cerca de 9 milhões a mais que em 2018, quando o número de pessoas em situação de fome somava 10,3 milhões.

A crise trazida pela pandemia de covid-19 está diretamente relacionada ao avanço ainda maior da fome nos últimos dois anos.

“A pandemia surge neste contexto de aumento da pobreza e da miséria, e traz ainda mais desamparo e sofrimento. Os caminhos escolhidos para a política econômica e a gestão inconsequente da pandemia só poderiam levar ao aumento ainda mais escandaloso da desigualdade social e da fome no nosso país”, apontou Ana Maria Segall, médica epidemiologista e pesquisadora da Rede PENSSAN.

“O país regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990”, ressaltou a rede PENSSAN ao divulgar o resultado de seu segundo inquérito. O levantamento anterior havia apontado que o cenário da fome no país remontava ao que era observado em 2004.

“A continuidade do desmonte de políticas públicas, a piora no cenário econômico, o acirramento das desigualdades sociais e o segundo ano da pandemia da Covid-19 tornaram o quadro desta segunda pesquisa ainda mais perverso”, diz a entidade.

A pesquisa, segundo a rede PENSSAN, foi realizada entre novembro de 2021 e abril de 2022, a partir de entrevistas feitas em 12.745 domicílios, distribuídos em áreas urbanas e rurais de 577 municípios dos 26 estados da Federação e mais o Distrito Federal.

A metodologia da pesquisa considerou a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), a mesma que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) utiliza para mapear a fome no país.

A Ebia classifica a segurança alimentar como sendo o acesso pleno e regular aos alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. Já a insegurança alimentar é classificada em três níveis – leve, moderada e grave – da seguinte maneira:

  • -Insegurança alimentar leve: há preocupação ou incerteza quanto acesso aos alimentos no futuro, além de queda na qualidade adequada dos alimentos resultante de estratégias que visam não comprometer a quantidade de alimentação consumida.
  • -Insegurança alimentar moderada: há redução quantitativa no consumo de alimentos entre os adultos e/ou ruptura nos padrões de alimentação.
  • -Insegurança alimentar grave: há redução quantitativa de alimentos também entre as crianças, ou seja, ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos entre todos os moradores do domicílio. Nessa situação, a fome passa a ser uma experiência vivida no lar.

Insegurança Alimentar

A pesquisa mostrou que 125,2 milhões de brasileiros vivem com algum grau de insegurança alimentar, número que corresponde a mais da metade (58,7%) da população do país.

Na comparação com 2020, a insegurança alimentar aumentou em 7,2%. Já em relação a 2018, o avanço chega a 60%.

De acordo com o coordenador da Rede PENSSAN, Renato Maluf, a perda da segurança alimentar no Brasil está diretamente relacionada à atuação governamental.

“As medidas tomadas pelo governo para contenção da fome hoje são isoladas e insuficientes, diante de um cenário de alta da inflação, sobretudo dos alimentos, do desemprego e da queda de renda da população, com maior intensidade nos segmentos mais vulnerabilizados”, apontou.

Maluf enfatizou que as políticas públicas de combate à extrema pobreza desenvolvidas entre 2004 e 2013 restringiram a fome a apenas 4,2% dos domicílios brasileiros.

A Fome no Brasil

De acordo com a pesquisa, na média, cerca de 15% das famílias brasileiras enfrentam a fome atualmente. Fatores regionais e sociais, no entanto, agravam a situação.

As estatísticas apontam que a fome:

  • – é mais presente entre as famílias que vivem no Norte (25,7%) e no Nordeste (21%);
  • – é maior nas áreas rurais, onde atinge 18,6% dos domicílios;
  • – é realidade na casa de 21,8% de agricultores e pequenos produtores;
  • – saltou de 10,4% em 2020 para 18,1% em 2022 entre os lares comandados por pretos e pardos;
  • – atinge 19,3% dos lares sustentados por mulheres e 11,9% dos chefiados por homens;
  • – em relação a 2020, mais que dobrou entre os domicílios com crianças menores de 10 anos de idade;
  • – é maior nos domicílios em que a pessoa responsável está desempregada (36,1%);
  • – saltou de 14,9% para 22,3% nos domicílios sustentados por pessoa com baixa escolaridade;

Com informações do G1.

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