EUA: democracia ou plutocracia?

BSB Capital 15/03/2022 às 13:14, Atualizado em 15/03/2022 às 13:14

EUA se “vendem” como exemplo de democracia, se autodefinem como modelo ideal de sistema político, mas a dita democracia não passa de plutocracia

É preciso corrigir Abraham Lincoln: “Governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos”

Foto: Reprodução CB Poder

Júlio Miragaya

Mais uma vez, a grande mídia repete a velha ladainha de que, à frente da OTAN, os EUA surgem como defensor da liberdade. Se “vendendo” como exemplo de democracia, se autodefinem como modelo ideal de sistema político e se arvoram no direito de classificar os demais países como democráticos ou não. Na verdade, tudo não passa, desde os tempos dos chamados “países fundadores”, de uma cortina de fumaça para encobrir sua verdadeira natureza: uma ditadura velada da burguesia.

Provas? Instituído em 1776, o direito de voto era privilégio dos homens brancos e ricos, sendo negado aos negros, mulheres, analfabetos e pobres (votava quem tivesse posses e pagasse uma taxa). O direito de voto conferido às mulheres em 1920 contemplou apenas as brancas e ricas. A democracia só valia para os anglo-saxônicos, notadamente os mais ricos.

Sob a Doutrina do Destino Manifesto, empreenderam a Marcha para o Oeste, massacrando os indígenas (população reduzida de 20 para 2 milhões) e roubando terras dos mexicanos; prosperaram com base no trabalho escravo dos negros; perseguiram imigrantes asiáticos (recolhendo a campos de concentração os 120 mil nipo-americanos após o ataque japonês à Pearl Harbor), latinos e eslavos. Na Guerra Civil, eram liberados do alistamento aqueles que pagavam taxa de 300 dólares (US$ 7.500 atuais).

Erigiram um sistema alicerçado na economia de mercado com representação parlamentar, que nada mais é que “o direito do povo escolher, a cada quatro anos, quem vai lhe explorar e oprimir”. Fizeram e fazem uso dos aparelhos judiciário e repressivo; da grande mídia, literatura e indústria do entretenimento para desqualificar qualquer projeto alternativo ao do capitalismo neoliberal. Impõem a desregulamentação do mercado de trabalho, a mercantilização da educação e da saúde e submetem o meio ambiente à sanha capitalista.

O resultado é que hoje os 5% mais ricos detém 65% da riqueza (54% em 1980) e o 0,01% mais rico (10 mil famílias) tinha 25% da riqueza (7% em 1980). Bela democracia!

Dois partidos burgueses (Republicano e Democrata) se revezam no poder há 170 anos. Há um direcionamento dos eleitores. Quando o cidadão tira o título de eleitor, lhe são apresentadas fichas de filiação apenas desses partidos. Com a legalização do Caixa 2 (SuperPAC), pilotam um sistema político dominado pelo dinheiro, com os lobbies comprando votações no Congresso.

A eleição para presidente é decidida nos 538 votos no Colégio Eleitoral e não no voto popular. O voto distrital (não proporcional), associado às reconfigurações dos distritos eleitorais propicia a eleição apenas de parlamentares democratas e republicanos. Acrescente-se a isso a perseguição ao comunismo (Macartismo), as restrições ao funcionamento dos sindicatos, a repressão e massacres de trabalhadores e negros.

No plano externo, o “império” usa e abusa de suas FFAA. Aponta China e Rússia como ameaças à democracia e ao mundo, quando é ele a maior ameaça. O orçamento militar de US$ 800 bilhões é 40% do total mundial, 17 vezes superior ao da China em termos per capita. De 248 conflitos armados dee 1946 a 2001, 201 (81%) foram iniciados pelos EUA.

Promovem golpes (Chile), sustentam ditaduras sanguinárias (Arábia Saudita), fomentam rebeliões e secessões, financiam grupos terroristas (Al Qaeda, Taliban, Tahir al-Sham e os neonazistas da Ucrânia) e acumulam crimes de guerra (Massacre de My Lai, no Vietnam, genocídio de 1 milhão de filipinos de 1898 a 1912, execução sumária de prisioneiros japoneses e as matanças em Hiroxima e Nagasaki).

Em suma, é preciso corrigir Abraham Lincoln: “governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos”, pois a dita democracia não passa de descarada plutocracia.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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