Crônica de um golpe não consumado

orlandopontesPor ,10/09/2021 às 12:38, Atualizado em 13/09/2021 às 11:46

A seca desta época do ano deixa o ar de Brasília quase irrespirável. Mas a semana que antecedeu o 7 de setembro de 2021 tornou o clima ainda mais sufocante. A avalanche de manifestantes bolsonaristas mudou a rotina da capital da República

Bolsonaro acena para apoiadores durante ato de 7 de setemnro. Foto: Europa Press

Na semana que antecedeu ao 7 de Setembro, o vice-governador do DF, Paco Brito (Avante), comentou com pessoas próximas – e avisou à sua assessoria – que ele e o governador Ibaneis Rocha (MDB) estariam de plantão às vésperas do Dia da Pátria. Juntos, monitorariam as ações do Ciop (Centro Integrado de Operações).

Na segunda-feira (6), Paco cumpriu a agenda. Mas, segundo apuraram alguns veículos de imprensa, o chefe do Executivo estava fora de Brasília – provavelmente no Piauí. A reportagem do Brasília Capital tentou xecar com a Secretaria de Comunicação do GDF, mas até a publicação desta matéria não recebeu resposta de onde estava Ibaneis desde sábado (4) até a noite de segunda-feira (6).

Daí, surgiram especulações de que Ibaneis poderia fazer parte de um suposto plano do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de dar um golpe de Estado durante as comemorações do Dia da Pátria. A ausência de Ibaneis deixaria a Polícia Militar local – um reduto bolsonarista – acéfala na resistência à invasão da Esplanada dos Ministérios, consumada no início da noite de segunda (6).

Uma das notícias mais contundentes neste sentido foi escrita pelos jornalistas Fernando Horta e Gustavo Conde (leia os principais trechos adiante). Já na sexta-feira (3), impressionava a quantidade de veículos passando pelas barreiras da Polícia Rodoviária nas principais entradas do DF. Na BR-060, uma blitz deixava o trânsito lento. Logo adiante, o fluxo de caminhões e camionetes de luxo no acesso ao Parque Leão era intenso, com buzinaço à margem da via.

Na segunda (6), a reportagem do Brasília Capital visitou o acampamento, e identificou outro ponto de concentração no Gama. Ali, o grupo era formado por pessoas vindas de Alagoas dispostas a “invadir o STF” e pedir a volta do militarismo. 

Reações

Mas os planos golpistas não contavam com as reações nos meios de comunicação e redes sociais e, especialmente, no Supremo Tribunal Federal, como narram Horta e Conde. Um dos primeiros a cobrar a presença de Ibaneis em Brasília foi o jornalista Hélio Doyle, pelo Twitter. 

“Onde está o @IbaneisOficial? Até poucas horas atrás não estava em Brasília. No Piauí? Na Fazenda no Triângulo? Na Europa? No Flamengo?”, escreveu, seguindo-se alguns ataques pessoais ao governador. A resposta, pelo mesmo canal, veio do secretário de Comunicação, Weligton Moraes, que levantou suspeitas contra Doyle, a quem chamou de “ex-jornalista”.

Na Avenida Paulista: “Nós queremos destituir os ministros do STF”, diz a faixa do manifestante. Foto: Divulgaçao

STF impediu manobra de Bolsonaro

De acordo com o que publicaram os jornalistas Fernando Horta e Gustavo Conde, os protestos convocados por Bolsonaro serviram para mobilizar a classe política para o impeachment. “Bolsonaro se expôs sem filtro ao País, dissipando qualquer dúvida sobre suas intenções golpistas e messiânicas”.

Mas, segundo a dupla, “os acontecimentos foram mais complexos do que isto. Houve uma tentativa clássica de golpe frustrada pela Suprema Corte em madrugada de altíssima tensão”. É consenso que o que ocorreu no dia 7 de setembro foi uma tentativa de golpe”.

Horta e Conde contam que, no dia 6, quase todos os hotéis mais baratos de Brasília estavam lotados. Esse movimento não passou despercebido pelo STF e pelo aparato de inteligência por ele montado – já que PF e a ABIN foram sequestradas por Bolsonaro.

Isolamento

A partir das 12h do dia 6, a PM do DF iniciou os planos de isolamento da Esplanada dos Ministérios, como parte do plano de segurança que é imposto compulsoriamente em dia de manifestações.

“Por volta das 18h, numa ação claramente planejada em moldes militares, bolsonaristas resolveram ‘testar a água’. Um grupo de cerca de 600 pessoas passou a retirar as barreiras e abrir espaço para que os grandes caminhões, que já estavam na cidade, rompessem o bloqueio”. A PM não ofereceu resistência.

“Do lado ‘de cima’, Ibaneis (…) convenientemente não estava presente no DF. Ou seja: estava tudo armado para uma “pequena” indisciplina da PM de Brasília, pretexto para que se incendiasse o país inteiro. Tudo passaria como uma azarada ‘falta de ordenamento’ em função da ausência do governador”. 

O tom do golpe

Caso as mobilizações prometidas em número chegassem a Brasília, Bolsonaro faria da Paulista, à tarde, apenas seu palco de completo sucesso. O presidente contava com pelo menos um milhão de pessoas em Brasília. Com isso, a pressão sobre as outras polícias dos estados seria insustentável”.

“A ‘grita’ inicial chegou ao presidente do STF, Luiz Fux, que, com a Corte em uníssono, entrou em contato direto com a PM do DF exigindo providências. A resposta inicial da PM foi protocolar. O Supremo não é a autoridade imediata a quem a PM seria obrigada a responder. A Constituição, por sua vez, diz que as PMs estão subordinadas ao Exército.

Sede do STF, em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Golpe de mestre

“Percebendo a fúria com que os bolsonaristas progrediam destruindo as barreiras na Esplanada, seguidos da complacência inicial da PM, vários atores políticos passaram a ligar incessantemente para Ibaneis, e a usar as redes sociais para denunciar o estopim do golpe.

“Fux ligou direto para os comandantes militares, ainda durante a madrugada, avisando que caso as PMs seguissem o comportamento leniente, ele (Fux) chamaria a GLO e convocaria as Forças Armadas para deter os manifestantes.

O que o STF fez foi adiantar uma tomada de decisão do Exército. As Forças Armadas esperavam primeiro a mobilização popular prometida, para então apoiarem o levante. Estavam, naquela madrugada, portanto, aguardando. O STF, contudo, exigiu uma posição imediata do Exército”.

“Na prática, tivessem os militares desobedecido Fux e no dia 7 as manifestações ‘flopassem’, os comandantes militares seriam processados por insubordinação e sairiam culpados de sedição. O preço era alto demais”.

Falta de dinheiro

No meio desse imbróglio, duas figuras trabalhavam. De um lado, Alexandre de Morais, de posse das informações de inteligência, mapeava o financiamento dos movimentos e bloqueava as contas certas e as chave-pix, asfixiando os financiadores de Bolsonaro. Muitas caravanas de locais perto de Brasília não puderam sair por conta da falta de dinheiro. O resultado foi o número reduzido de apoiadores.

“O outro ator que agia em silêncio era o vice-governador do DF, Paco Britto (Avante), que atuou diretamente com a PM. Na falta de Ibaneis, a desculpa da PM para a inação não seria mais possível. O comportamento ambíguo do GDF (ora apoiando Bolsonaro ora obedecendo ao STF) já tensionava o ambiente.”

“Britto, no entanto, compreendeu que recairia sobre ele toda a culpa de uma malfadada sedição que ocorresse na PM de Brasília. Novamente, o STF aumentava o custo da tomada de decisão e o vice precisou garantir a PM “na linha”.

A tensa madrugada do dia 6 de setembro, que virou com fogos de artifício o tempo todo, determinou o fracasso do golpe do dia 7. O STF subiu o custo das ações políticas dos outros agentes e diminuiu o acesso destes agentes às informações que precisavam para a tomada de decisão.

“As ações não foram coordenadas entre os atores políticos que saíram denunciando a posição claudicante da PM no dia 6 e o STF que colocou “a faca nos peitos” dos comandantes militares, mas, de alguma forma, elas foram complementares. 

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