Júlio Miragaya (*)
Com exceção de manifestações nos EUA e em capitais europeias e de protestos violentos, com várias mortes no Paquistão, o mundo assiste impassível ao massacre que o imperialismo norte-americano e o governo fascista de Netanyahu promovem no Oriente Médio. Concomitantemente ao massacre que perdura em Gaza, Trump e Netanyahu iniciaram uma nova agressão ao Irã, seguida de bombardeios também no Líbano.
Os argumentos de Trump para a agressão, de impedir o avanço do programa nuclear iraniano e dar fim à ameaça de mísseis balísticos daquele país atingirem os EUA são completamente mentirosos. O programa nuclear iraniano, segundo o próprio Trump, foi desmantelado pelos bombardeios de junho de 2025 e os mísseis iranianos têm alcance de 1.500 Km, mal atingindo Tel Aviv, quanto mais qualquer ponto da costa leste dos EUA, a 9.000 Km de distância.
Já o argumento de Israel beira o cúmulo da hipocrisia. Alega que o Irã não reconhece o Estado de Israel e prega a sua destruição, num mero exercício de retórica, mas igualmente Israel afirma que jamais admitirá a existência do Estado da Palestina, e a destruição da Palestina está longe de ser retórica. Não obstante o cessar-fogo, o governo de Israel continua matando 70 palestinos a cada mês em Gaza e na Cisjordânia.
Em Gaza já são 85 mil mortos (incluindo 11,5 mil sob os escombros), dos quais, conforme o próprio governo israelense reconhece, 83% (70 mil) são civis (maioria de crianças e mulheres). Feridos e mutilados passam de 170 mil.
A vida em Gaza mais parece o inferno na terra prenunciado por Kant. Cerca de 90% dos seus 2,3 milhões de habitantes perderam suas casas e hoje vivem em tendas ou em prédios em ruínas. Israel continua obstruindo o fornecimento de alimentos, água potável e medicamentos e os serviços públicos foram desmantelados, com a destruição de hospitais e escolas. E Trump, cinicamente, fala em construir resorts de luxo em meio aos escombros.
O pretexto de combater o Hamas cai por terra quando se observa que na Cisjordânia, onde o Hamas não atua, foram mortos 1.200 palestinos, 10,5 mil foram feridos ou mutilados e mais de 12 mil encarcerados. Já são 750 mil colonos israelenses na Cisjordânia, em terras tomadas aos palestinos e somente em 2025 foram autorizadas a construção de 20 mil novas habitações.
Desde outubro de 2023, foram mais de 2 mil ataques de colonos ultradireitistas com o suporte do exército contra palestinos, envolvendo assassinatos, queima de casas, roubo e abate de animais, queima de olivais e apedrejamento de escolas.
Embora deva ser condenado o abominável ataque terrorista desferido pelo Hamas contra civis israelenses em outubro de 2023, é óbvio que grande parte da população árabe, ante à pérfida colaboração das ditaduras de seus países com os EUA, veja nos militantes do Hamas, Hezbollah e Houthis a expressão da resistência à opressão que os EUA e Israel promovem há décadas na região.
Os bombardeios norte-americano e israelense já causaram mais de 2 mil mortos no Irã, incluindo 150 meninas de 7 a 12 anos covardemente assassinadas numa escola primária, e mais de 10 mil feridos. E os deslocados de suas casas são mais de 3 milhões. No Líbano, bombardeios israelenses às áreas habitadas por xiitas (30% da população libanesa) provocaram mais de 850 mortes, a maioria de civis, e quase 1 milhão foram forçados a abandonar suas casas.
O Irã contra-atacou bombardeando bases militares norte-americanas nos países do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Bahrein e Omã), que não só permitiram a instalação dessas bases em seu território, mas também seu uso para deferir ataques ao território iraniano. O número de mortos nesses países e em Israel foi de 43, incluindo 13 militares norte-americanos, menos de um milésimo das mortes na Palestina, Irã e Líbano.
Os EUA sabem que bombas e mísseis não vão derrubar o governo iraniano, mas seu objetivo é levar ao extremo as dificuldades econômicas do país e do seu povo, mediante a destruição de sua infraestrutura econômica e social, provocando levantes “espontâneos” da população contra o governo. Depois vem o caos no país e os lucros das grandes corporações e dos bancos, a exemplo do que ocorreu no Iraque, Líbia, Egito e Síria. Quanto à alegada “implantação da democracia”, esta é solenemente esquecida.
Enfim, que importa a subida do preço do petróleo e gás na inflação mundial se as corporações petrolíferas já anteveem aumento de US$ 68 bilhões em seus lucros em 2026? Que importa a estagnação econômica nos EUA se o complexo industrial-militar já faturou US$ 30 bilhões na agressão ao Irã?
Todos sabem que a Ucrânia só resiste à Rússia há 4 anos em razão dos US$ 180 bilhões em armamentos recebidos da OTAN. Resta saber quando China e Rússia começarão a suprir as necessidades de armamentos do Irã para fazer frente à agressão dos EUA e Israel?
(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia