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Artigo

Vampiros no meio da curva

  • Redação
  • 01/04/2016
  • 12:02

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Durante milênios, a Europa foi um campo de batalha. Tribos, clãs, feudos, condados, principados, impérios, sectários das mais diferentes crenças lutaram contínua e ferozmente entre si. Travaram guerras que às vezes chegaram a ser denominadas pelo seu tempo de duração: Guerra dos Trinta Anos, e ainda mais absurda, aquela que se prolongou pelo equivalente a quatro gerações, a Guerra dos Cem Anos. A partir do século XIX, em relação com o desenvolvimento econômico, particularmente no campo dos armamentos, as guerras europeias começaram a descambar para o genocídio, que como se sabe culminou com um holocausto.

Uma paz duradoura sempre pareceu impossível aos muitos europeus nascidos com a espada no gene. Mas algum tempo depois do encerramento da II Guerra Mundial (mais de cinquenta milhões de mortes e destruição daquilo que dezenas de gerações haviam construído), alguns políticos inteligentes e de boa-vontade propuseram uma nova fórmula para assegurar a paz: unir as nações do continente – a começar pelas mais poderosas – em torno dos interesses econômicos.

Com esse propósito, criou-se em 1949 a Comunidade Européia do Carvão e do Aço, que reuniu várias nações, entre as quais se destacavam França e Alemanha, os maiores e mais pertinazes adversários do continente. Os benefícios produzidos pelo acordo logo começaram a mudar a cabeça de povos e dirigentes, o que resultou na adesão de vários países.  Fortalecida, aquela primeira Comunidade Européia se tornaria semente de várias outras.

A etapa seguinte começou, pois, com a criação da Comunidade Econômica Européia, mais conhecida como Mercado Comum Europeu, instrumento que desde sempre fora visto como uma utopia.  O êxito da unificação econômica abriu caminho para a criação de órgãos internacionais destinados a tratar de problemas políticos e questões jurídicas: o Parlamento Europeu, sediado em Estrasburgo; o Conselho de Ministros, em Bruxelas; e o Tribunal de Contas, no Luxemburgo.

Graças ao desenvolvimento econômico, e sobretudo à decorrência de  mais de meio século de paz – algo inédito na história do continente –, ser aceito na Comunidade Européia é hoje um sonho de nações consideradas periféricas. E de outra parte, um prato indigesto para os ferrenhos nacionalistas da extrema direita, partidários do isolacionismo e sempre a fim de uma contenda. Sua campanha de destruição do sistema comum europeu acaba de conquistar a primeira vitória na Grã-Bretanha, onde uma escassa maioria decidiu pelo rompimento com o pacto comunitário.

Foi, no entanto, um plebiscito de resultados não de todo convincentes. Tanto que menos de uma semana depois da apuração dos votos, mais de 3 milhões de arrependidos já pediam um novo referendo: queriam  corrigir o que agora consideravam erro. Mas, mesmo que os resultados de um segundo turno sejam diferentes, o rastilho do primeiro já corre com celeridade pela Europa, incendiando corações e mentes de nacionalistas fanáticos, cujos sonhos, a História nos ensina, são sempre coloridos com o vermelho do sangue de vítimas incontáveis.

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