Tersandro Vilela (*)
O Sistema Único de Saúde (SUS) avança na incorporação de inteligência artificial (IA) e outras tecnologias digitais como ferramentas estratégicas para enfrentar gargalos e ampliar a capacidade de atendimento no país. Na quarta-feira (7), o governo federal anunciou a criação da Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes, um plano de modernização que prevê o uso de inteligência Artificial (IA), telemedicina, big data e monitoramento remoto em unidades de saúde públicas de todas as regiões brasileiras.
A iniciativa foi oficializada com a assinatura de um contrato de R$ 1,7 bilhão com o Novo Banco de Desenvolvimento, do BRICS, destinado à construção do primeiro hospital público inteligente do SUS em São Paulo, que deverá servir de modelo nacional de assistência totalmente digital e medicina de alta precisão.
Segundo o Ministério da Saúde, os “hospitais inteligentes” utilizarão sistemas com IA para agilizar diagnósticos, personalizar tratamentos, melhorar a triagem de pacientes e ampliar o atendimento remoto, reduzindo filas e o tempo de espera em casos de urgência e emergência.
A estratégia inclui a instalação de UTIs inteligentes em 13 estados, conectadas digitalmente com plataformas de gestão de dados e teleconsultas, um esforço para tornar o SUS mais eficiente sem perder o foco na universalidade e no acesso.
O movimento ocorre em um contexto mais amplo de investimento em tecnologia e saúde no país. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024–2028, que prevê R$ 23 bilhões em investimentos em IA aplicada a áreas como saúde, educação e meio ambiente, coloca o setor de saúde pública como uma das prioridades nacionais, destacando o potencial dos dados do SUS para treinar algoritmos e melhorar decisões clínicas e administrativas.
Especialistas apontam que a vasta base de informações do SUS, se integrada de forma segura e regulamentada, pode ser um diferencial para o desenvolvimento de soluções de IA que reflitam a diversidade da população brasileira.
Em experiências práticas, iniciativas como a tecnologia NoHarm têm sido usadas em regiões remotas da Amazônia para apoiar farmacêuticos a detectar erros de prescrição, ilustrando como IA pode aliviar a sobrecarga de profissionais e reduzir riscos à saúde.
Debates recentes em eventos científicos e fóruns de políticas públicas ressaltam a necessidade de regulamentação, capacitação de profissionais e governança de dados para garantir que a IA não acentue desigualdades nem comprometa a privacidade dos usuários do SUS.
Críticos também alertam para desafios estruturais, como a fragmentação de sistemas de dados e a desigualdade de recursos entre estados e municípios, que podem dificultar a adoção homogênea das tecnologias.
Mesmo assim, para o governo e parte da comunidade científica, a aposta em IA representa uma oportunidade de ampliar a eficiência do maior sistema público de saúde do mundo, com promessas de diagnósticos mais rápidos, gestão mais eficaz de recursos e, potencialmente, um atendimento mais humano e acessível à população.
(*) Jornalista pós-graduado em Filosofia, especialista em Liderança: gestão, resultados e engajamento, e mestrando em Inovação, Comunicação e Economia Criativa