Tersandro Vilela (*)
A inteligência artificial, impulsionada por uma corrida empresarial bilionária, consolidou no imaginário da população a ideia de que produzir texto, imagem ou código pode ser rápido e barato. No entanto, por trás da interface limpa dos aplicativos, há uma infraestrutura intensiva em energia, água e capital que transforma cada comando em um processo de alto custo econômico e ambiental.
Modelos de IA generativa dependem de data centers de grande escala, equipados com milhares de processadores de alto desempenho. O treinamento desses sistemas pode exigir dezenas de gigawatts-hora de eletricidade, volume comparável ao consumo energético de cidades inteiras por muitos dias.
O impacto não se limita ao momento de criação do modelo: a etapa de uso cotidiano, chamada inferência, responde hoje pela maior parte do consumo energético, impulsionada por bilhões de consultas diárias.
IMPACTO HÍDRICO – Sistemas de resfriamento são necessários para evitar o superaquecimento de servidores de alta densidade. Pesquisas acadêmicas indicam que o desenvolvimento de modelos de linguagem pode consumir milhões de litros de água ao longo do ciclo de vida do treinamento.
Estimativas amplamente citadas apontam que cerca de 50 interações com um chatbot podem demandar, em média, meio litro de água, dependendo da eficiência energética do data center e da matriz elétrica utilizada.
O impacto ambiental tende a crescer à medida que modelos se tornam mais complexos. Estudos recentes projetam forte expansão do consumo de eletricidade dos data centers até 2030, impulsionada principalmente por cargas de trabalho de IA.
Modelos maiores podem emitir até dezenas de vezes mais carbono do que versões menores, evidenciando uma relação direta entre escala computacional e impacto ambiental.
CUSTO FINANCEIRO – O desenvolvimento de sistemas avançados exige investimentos bilionários em semicondutores especializados, infraestrutura energética e armazenamento de dados. O aumento dessa demanda tem pressionado cadeias globais de suprimento e reforçado a concentração tecnológica em poucas empresas capazes de sustentar tais investimentos.
A expansão da IA expõe um paradoxo contemporâneo: a redução do custo marginal de produzir informação depende de uma base material cada vez mais cara. Tornar visível essa infraestrutura energética, hídrica e financeira é condição necessária para qualificar o debate público sobre regulação, transparência e sustentabilidade na economia digital.
(*) Jornalista pós-graduado em Filosofia, especialista em Liderança: gestão, resultados e engajamento, e mestrando em Inovação, Comunicação e Economia Criativa