Júlio Miragaya (*)
No final do século XIX e início do XX ocorreram as primeiras levas de migrantes judeus para a Palestina, notadamente do Leste Europeu, empobrecidos, reclusos em shtetl (aldeias) e guetos e fustigados pelos pogroms. Fugiam da pobreza e da perseguição em busca de terras para produzir, com destaque para as experiências socialistas dos kibutzim e cooperativas.
Mas o apelo do Sionismo era limitado. Os judeus iam atrás de terras e oportunidades para viver melhor. Enfim, o discurso de retorno à Terra Sagrada não prevalecia, pois a preocupação maior era realizar sonhos individuais e não projeto nacional grandioso. Por essa razão, o destino prioritário eram os EUA, para onde migraram cerca de 2,75 milhões judeus europeus entre 1880 e 1914, contra alguns milhares para a Palestina.
A partir de 1922, com o fim do domínio do Império Otomano e sob o Mandato Britânico, houve a facilitação de compra de terras árabes por judeus e o consequente enfraquecimento das lideranças palestinas. E nos anos seguintes, com a ascensão do nazismo na Europa e as restrições à migração para os EUA após o Crash da Bolsa em 1929, houve um forte aumento da migração para Palestina.
A busca de uma terra mais segura para os judeus justificava a volta a Sião, o Sionismo. O problema era que a terra escolhida já estava ocupada pelo povo palestino. Como agravante, os judeus que migravam para a Palestina buscavam não conviver com a população árabe. Os que compravam terras, empregavam somente judeus, dispensando os árabes que anteriormente nelas trabalhavam.
Com a intensificação do fluxo migratório, os conflitos entre judeus e árabes se acentuaram. Em 1947 e 1948, ano da proclamação do Estado de Israel, se tornaram comuns os ataques de milícias palestinas contra caravanas judaicas que transportavam mantimentos e munições entre regiões de assentamentos judeus, o que provocou violentas reações das milícias judaicas, que atacavam aldeias e vilarejos palestinos.
Com a deflagração da guerra aberta em 1948, o débil ataque pelos alquebrados exércitos dos países árabes vizinhos (Egito, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano) suscitou uma forte reação do já efetivo exército israelense e fez com que cerca de 800 mil dos 1,4 milhão de palestinos fugissem, principalmente para a Cisjordânia e Gaza, além do Líbano, Síria e Egito.
Suas casas, celeiros, escolas, postos de saúde, prédios da administração local e mesquitas foram destruídas e queimadas, impedindo que os palestinos retornassem às suas terras e casas. Israel impôs um regime militar sobre os 600 mil palestinos que permaneceram. Isso poucos anos após o massacre de judeus pelos nazistas.
O Estado de Israel foi então criado, mas a maior parte das regiões que formariam o Estado da Palestina foi tomada por Israel. O que restou foi ocupado pela Jordânia (Cisjordânia) e pelo Egito (Faixa de Gaza). E o que se seguiu foi uma série de conflitos entre o Estado de Israel e os palestinos e estados árabes vizinhos.
Em 1956, Grã-Bretanha, França e Israel invadiram o Egito e ocuparam o canal de Suez. Mas os EUA impuseram a retirada. Em 1967 ocorreu a Guerra dos Seis Dias, quando Israel novamente derrotou o Egito, Jordânia, Síria e Iraque e, em consequência, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, onde começou a instalar colônias. Ocupou também o Sinai e a região de Golan, expulsando 83 mil dos 90 mil moradores (muitos refugiados de 1948), restando apenas drusos.
Em 1973 ocorreu a Guerra do Yom Kippur; em 1982, a invasão do Líbano, que durou até 2000 e teve 20 mil mortos, incluindo os massacrados em Sabra e Chatila. Em 1987 ocorreu a 1ª Intifada, movimento de resistência da juventude palestina; em 1990, a 2ª Intifada, e em 2007 uma nova invasão do Líbano, culminando no ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023 seguido do massacre em curso de mais de 73 mil palestinos em Gaza.
Atualmente, a Faixa de Gaza é um imenso campo de concentração, e a Cisjordânia permanece sob controle total por parte de Israel (áreas B e C) ou parcial (área A). As forças políticas de direita de Israel, capitaneadas pelos religiosos ultraortodoxos, usam o Holocausto como argumento para sua “defesa a todo custo”.
Qualquer contestação recebe a pecha de antissemitismo, o que não procede, pois, criticar o Sionismo não é ser antissemita, que, por sinal, não é discriminar apenas judeus, mas qualquer povo semita, entre eles os árabes.
A perseguição e os massacres sofridos na Idade Média pelos reinos cristãos; a pressão pela assimilação; o Caso Dreyfus; os pogroms; culminando no extermínio perpetrado pelos nazistas, tudo isso justifica a aspiração dos judeus em constituírem um Estado Nacional, assim como curdos, bascos e balúchis lutam até hoje para formar seus Estados Nacionais.
Mas, de uma justa aspiração, o Sionismo foi se transformando num projeto colonialista e hoje expressa apenas a opressão de outro povo.
Pergunta aos judeus democratas: É justo defender esse Estado?
(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia