Júlio Miragaya (*)
Nesta semana o governo de Netanyahu anunciou a ampliação do controle de Israel sobre o território palestino da Cisjordânia, desnudando o indisfarçável desejo israelense de impedir a formação do Estado Palestino e incorporar a Cisjordânia a Israel, misturando interesses colonialistas com a motivação religiosa dos judeus ocuparem toda a “Terra Prometida” por Javé, pregada pelos ultraortodoxos.
Como começa toda essa “conversa”? De acordo com o livro Gênesis do Velho Testamento, a criação do mundo se deu há 5.786 anos, em 3760 aC, e nos 2 milênios seguintes ocorreram a aparição de Adão e Eva, o dilúvio com Noé e a famosa Torre de Babel. Nos 5 séculos subsequentes vieram os profetas Abraão, Isaac e Jacó, com o propósito de ocupar a tal “Terra Prometida”.
Depois adveio o êxodo e a escravidão no Egito; Moisés e a fuga com a travessia do Mar Vermelho; a Torá no Monte Sinai com suas leis e regras; a caminhada por 40 anos no Deserto do Sinai e, por fim, a invasão e a conquista da Terra Prometida (Canaã) por Josué, iniciando o período de quase 3 séculos dos chamados juízes.
Todo esse período mistura muito pouca coisa de história com uma enorme dose de mitologia e ficção. Pouco do aqui relatado tem comprovação nos registros arqueológicos. Na verdade, os hebreus eram um dos muitos povos cananeus (filisteus, moabitas, edomitas, amonitas e fenícios), que habitavam a antiga Canaã, que englobava o atual território da Palestina e partes da Jordânia, Síria e Líbano.
A história hebraica efetivamente comprovada iniciou-se em 1025 aC, com os chamados Reis reais, ocasião em que o reino dos hebreus foi comandado por Saul, seguido por Davi e Salomão. Em 931 aC ocorreu a cisão do reino, resultando no Reino de Israel, no norte fértil e próspero, e no Reino de Judá, no sul árido e pobre.
Os dois reinos subsistiram até 724 aC, quando Israel foi conquistado pela Assíria. O Reino de Judá, para onde migraram muitos hebreus do norte, sobreviveu até 586 aC, quando se deu a conquista de Judá pela Babilônia e a destruição do templo de Jerusalém.
Foi justamente nesse momento de enormes privações e sacrifícios, como a destruição de Samaria pelos assírios e a resistência ao cerco de Jerusalém, que Isaías lançou a profecia da vinda de um Messias. A expectativa de Isaías não era de que o Messias apenas libertaria o povo hebreu do domínio estrangeiro, mas também o libertaria das injustiças contra o povo promovida pelos ricos e poderosos, incluindo a cúpula da igreja judaica.
Inúmeros historiadores hebreus caracterizam o Messias como “alguém que está por vir, mas que nunca chega”, pois se chegar, some o “por vir”. É a esperança que nunca acontece, é a espera passiva. Seria a fraqueza do povo judeu, pois jamais poderá realizar-se.
Ao longo dos séculos seguintes, após a aparição de muitos “candidatos” ao posto de Messias, Jesus foi aceito por alguns e fundou uma nova religião a partir do judaísmo, mas para os judeus. Ele foi apenas mais um que se proclamou o Messias.
Em torno de 70 dC, com a ocupação romana, ocorreu a principal diáspora do povo judeu, que migrou para várias regiões do planeta, desde o Oriente Médio e a África Setentrional até a Europa e a Ásia Central. Na Palestina permaneceu um contingente diminuto, bastante minoritário em relação aos outros povos semitas que também habitavam a região, e que cinco séculos depois abraçaram a religião islâmica.
Na Europa cristã, durante boa parte das Idades Média e Moderna os judeus foram perseguidos, sob a acusação de ter sido Jesus morto por obra dos judeus, mera cobertura para a expropriação de judeus que haviam acumulado grandes fortunas.
No final do século XIX, os judeus que viviam na Europa Ocidental estavam bem assimilados pela sociedade burguesa, motivo de críticas pois isso solapava suas bases culturais, diferentemente dos judeus do Leste Europeu (Rússia, Ucrânia, Polônia etc.), que sofriam com os massacres dos pogroms.
Embora ao longo dos séculos alguns religiosos tenham mencionado o desejo de retornar à Palestina, é somente nesse contexto do final do século XIX na Europa que surge o termo “Sionismo”, representando o intento dos judeus de constituírem um Estado Nacional Judeu que preservasse a identidade religiosa e cultural e protegesse o povo judeu de seguidas perseguições.
O 1º Congresso Sionista em Basileia (Suíça), em 1897, elegeu o judeu austríaco Theodor Herzl como líder do movimento e organizou as primeiras compras de terras na Palestina para assentamento de imigrantes judeus. Teve início aí o processo que levará à formação do Estado de Israel e a uma gama de conflitos que se arrasta por todo o século XX e início do século XXI.
(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia