Projetos ambiciosos. Obras modernas. Milhões investidos. No Distrito Federal, espaços públicos que deveriam servir à população hoje estão fechados, vazios ou subutilizados. Levantamento do Brasília Capital traz detalhes de como essas estruturas, que custaram caro aos cofres públicos, se tornaram símbolos de desperdício, má-gestão e de oportunidades perdidas.
Os “microondas” da PM
Posto Comunitário de Segurança queimado na QR 415 em Samambaia Norte, em 2016 — Foto: Corpo de Bombeiros DF/ Divulgação
Em 2008 e 2009, o então Governo do Distrito Federal criou 131 Postos Comunitários de Policiamento (PCS). O projeto inicial previa a implantação de 300 deles, que ficaram conhecidos como “micro-ondas da PM”, após incêndios recorrentes. À época, foram gastos R$ 18 milhões.
Ao anunciar o fim dos postinhos, em 2015, o chefe do Estado Maior da Polícia Militar do DF, coronel Marco Antônio Nunes, disse, na Câmara Legislativa, que os micro-ondas macularam o policiamento comunitário, que “é muito mais do que um posto físico: pressupõe mobilidade e interação com a população”.
Shopping Popular
O espaço construído em 2009, ao lado da antiga Rodoferroviária, tinha o objetivo de abrigar os camelôs do Setor Comercial e da plataforma superior da rodoviária do Plano Piloto. A obra custou R$ 12 milhões, mas nunca atraiu a clientela. Anos depois, órgãos públicos foram instalados no local, como o Detran e o BRB. O banco fechou a agência por falta de movimento.
Em 2024, a Câmara Legislativa do DF ainda discutia o que fazer no espaço. O presidente da Associação dos Feirantes do Shopping Popular, Gil Ramalho, pediu aos parlamentares que trabalhassem pela manutenção do Detran no local: “A permanência do Detran é muito importante para o movimento do shopping. Durante a semana há algum movimento trazido pelo Detran, mas aos sábados não há movimento nenhum”, observou.
Ônibus com porta do lado errado
Seria cômico, se não fosse trágico. As obras na Estrada Parque Taguatinga (EPTG), iniciadas em 2009, foram concluídas somente em 2019, ao custo de R$ 244 milhões. Em 2011, o Tribunal de Contas do DF apresentou uma lista de irregularidades que comprometiam a durabilidade da via e a segurança dos usuários.
Além de todas as questões de infraestrutura, os ônibus teriam de ter portas ao lado esquerdo, quando normalmente eram à direita. Os primeiros 10 veículos adaptados para a nova EPTG chegaram ao Distrito Federal somente em 11 de dezembro de 2019, com capacidade menor de passageiros, por terem portas em ambos os lados (foto).
Centrad
O Centro Administrativo do DF (Centrad), entre Taguatinga, Ceilândia e Samambaia, está fechado há mais de 12 anos. Com 182 mil metros quadrados de área construída, o complexo de 18 prédios foi idealizado pelos gestores à época com o objetivo de descentralizar órgãos do GDF.
A obra bilionária, executada por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP), nunca chegou a ser ocupada. Além da construção, o acordo previa que as empresas fossem responsáveis pela manutenção, segurança e limpeza do espaço, com pagamento de cerca de R$ 17 milhões mensais.
Como o Centrad nunca entrou em funcionamento, os repasses não foram realizados, e a PPP foi oficialmente anulada em 2022. Desde então, o GDF passou a arcar apenas com os custos de segurança do local, que enfrenta recorrentes casos de invasão, vandalismo e depredação. Uma conta que já vem sendo paga pela população do Distrito Federal.