Júlio Miragaya (*)
Após a propalada química que rolou entre Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, muitos analistas e próceres do governo se animaram com a aproximação entre os dois. Mas é recomendável ter cautela. O encontro de Lula com Trump na Malásia pode até resultar em alguma redução nas tarifas impostas aos nossos produtos exportados para os EUA. Porém, em se tratando de Trump e do imperialismo norte-americano, não há certezas. Basta ver os ataques de Trump contra os presidentes da Venezuela e da Colômbia, acusando-os de narcotráfico, e as seguidas violações à soberania dos dois países. E o que dizer do criminoso apoio ao genocídio promovido por Israel em Gaza.
Os ataques de Trump ao Brasil começaram com sua “Carta ao Presidente Lula”, de 9 de julho, quando, mentindo descaradamente, afirmou que “imporia tarifas de 50% sobre todas e quaisquer exportações brasileiras para os EUA, pois são necessárias para corrigir éficits comerciais insustentáveis contra os Estados Unidos”. Ora, há décadas os EUA têm superávits comerciais com o Brasil. E nos dispensando tratamento de republiqueta de banana, Trump citou como um dos motivos para punir o Brasil “o julgamento do ex-presidente Bolsonaro, uma vergonha internacional que não deveria estar ocorrendo, e que deve acabar ‘imediatamente’”.
Com base em quê Trump se achou no direito de interferir no julgamento conduzido pela Justiça brasileira de uma tentativa de golpe de Estado? Talvez porque ache normal tentativas de golpe de Estado, visto que ele próprio não reconheceu sua derrota eleitoral e incitou seus apoiadores a invadir o Capitólio em janeiro de 2021 para barrar a assunção de Joe Biden, o que resultou na morte de 5 norte-americanos. Ocorre que, ao contrário da justiça brasileira, a deformada democracia norte-americana não só não julgou Trump como permitiu que ele concorresse e fosse, quatro anos após a tentativa de golpe, eleito presidente dos EUA.
Trump acusou o Brasil de “ataques insidiosos contra eleições livres e violação da liberdade de expressão dos norte-americanos, por causa de ordens de censura a plataformas de mídia social dos EUA”. Ora, só alguém que se acha “imperador” pode exigir que as big techs norte-americanas não sejam enquadradas pela legislação brasileira. E que lição de democracia os EUA têm a nos dar? Um país em que o sistema eleitoral é tão antidemocrático que a eleição do presidente não se dá pelo voto popular, mas por um colégio eleitoral com 538 eleitores e onde os direitos dos 140 milhões de negros, “chicanos”, indígenas e asiáticos são violados diariamente, razão pela qual cerca de 7 milhões foram às ruas em junho e outubro em mais de 2 mil cidades bradando “No Kings”.
E o que dizer da porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, que, ante a iminente condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, declarou que “o presidente Trump não tem medo de usar meios econômicos nem militares para proteger a liberdade de expressão ao redor do mundo”. Além da absurda ameaça, com que autoridade os EUA se arrogam a posar de protetor da liberdade de expressão em todo o planeta quando cinicamente ignoram há décadas que ela inexiste na sua aliada Arábia Saudita, assim como em outras tantas ditaduras por eles apoiadas mundo afora.
Mesmo em seu discurso em 23 de setembro na Assembleia Geral da ONU, entre afagos a Lula, Trump voltou ao ataque: “O Brasil interfere nos direitos e liberdades dos cidadãos, inclusive americanos, com censura, repressão, corrupção judicial e perseguição”. E do alto de sua arrogância, afirmou que “o Brasil está indo mal e continuará indo mal. Só consegue se sair bem quando trabalha conosco. Sem nós, fracassarão, assim como outros fracassaram”. Indo mal? E quem quer saber sua opinião sobre os rumos de nosso país? E desde quando só nos saímos bem quando estamos de acordo com os EUA? Uma das vezes em que o Brasil agiu assim nos deu 21 anos de ditadura militar.
Lamentavelmente os ataques de Trump encontraram respaldo em políticos e partidos políticos brasileiros, que em vez de defenderem o Brasil, apoiaram os ataques de Trump. Foi o que fizeram os governadores e pré-candidatos à presidência Tarcísio de Freitas, de São Paulo; Romeu Zema, de Minas Gerais; Ratinho Júnior, do Paraná; e Ronaldo Caiado, de Goiás. Como têm a pretensão de governar o Brasil sendo tão submissos a um governante estrangeiro?
Em suma, é recomendável muita cautela. Enquanto Lula e Trump se encontram na Malásia, navios de guerra dos EUA bombardeiam barcos venezuelanos e colombianos matando dezenas de pessoas sem qualquer prova de que são traficantes. É oportuno lembrar a fábula do escorpião e do sapo, pois é da natureza do imperialismo atacar. Lembremos que o imperialismo alemão fez um pacto de não agressão com a União Soviética em 1939, mas mesmo decretando sua própria morte, sua natureza impôs atacá-la. Jamais confiar no escorpião, eis a lição a ser aprendida.
(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan (atual IPEDF) e do Conselho Federal de Economia