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colaboradores, Política

Massacre do Alemão e da Penha: a “bala de prata” da direita

  • Júlio Miragaya
  • 03/11/2025
  • 11:18

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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Júlio Miragaya (*) 

O relativo sucesso do governo Lula na área econômica (aumento do PIB pelo 3º ano consecutivo, queda do desemprego e da inflação) e social, aliado ao bem-sucedido enfrentamento às ameaças de Trump desnortearam a direita. Desde o desmascaramento da Lava-Jato, a direita vem colecionando fracassos: derrota de Bolsonaro em 2022, fiasco do golpe de Estado e condenação à prisão de Bolsonaro e militares golpistas, evangélicos e políticos se digladiando.

 O bolsonarismo e a direita em geral não têm discurso para enfrentar Lula em 2026. Tenta, então, uma “bala de prata” pra ter alguma chance. E essa bala é a segurança pública. Aproveitando-se de uma frase infeliz de Lula em Jacarta, o governador Cláudio Castro (PL) não perdeu tempo e promoveu a “Operação Contenção” nos Complexos do Alemão e da Penha, com o objetivo de gerar um massacre com repercussão internacional.

No dia seguinte à chacina, Felipe Curi, o fascista secretário da Polícia Civil/RJ, explicitou a estratégia da direita ao afirmar que segurança pública será o tema central nas eleições de 2026 e atacar Lula ao dizer que “traficante outro dia passou a ser vítima do usuário”. E abusou do termo narcoterrorismo, forjado por Trump para rotular os presidentes Maduro, da Venezuela; e Petro, da Colômbia, com o objetivo de intervir militarmente nesses países. Não à toa já há projeto na Câmara classificando narcotráfico como narcoterrorismo.

Dois dias depois, os governadores de oposição e pré-candidatos à presidência se reuniram no Rio para pegar carona no episódio e tentar unificar a direita fragmentada. Reclamaram que Lula não ajuda os estados, mas continuam rejeitando a PEC da Segurança Pública e a criação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). 

Sob o lema “Bandido bom é bandido morto”, formaram o cinicamente denominado “Consórcio da Paz”, tentando colar em Lula a pecha de fraco no combate ao crime. É combate ao narcotráfico ou artimanha política para colher dividendos eleitorais? 

Combate, de fato, foi a Operação Carbono Oculto em SP, realizada pela PF, que atacou os braços do PCC no sistema financeiro. Resta claro que o objetivo é remobilizar as hordas bolsonaristas sob a bandeira do uso da violência para dar proteção ao cidadão comum. 

As vítimas dessa “guerra” contra o tráfico de drogas não são os traficantes/milicianos, nem os usuários, e tampouco os policiais. São os moradores das favelas, que vivem acuados pelos achaques dos traficantes e milicianos e pela ação violenta da polícia. 

Espalhando o pânico, suas incursões passam a impressão de que se está liquidando os criminosos. Ledo engano, pois levantamento da UFF mostra que de 2007 e 2023 (governos Cabral, Pezão, Witzel e Castro), nada menos que 7.300 operações foram deflagradas em áreas controladas pelo CV. E a estratégia de promover matanças, como as de Vigário Geral (21 mortos), Jacarezinho (28), Vila Operária (23), Vila Cruzeiro (25) acabaram com o CV? Não. Pelo contrário. A área controlada pelo CV aumentou em 89% nesse período. 

Mas a maioria da população é ludibriada ou se deixa enganar. Segundo pesquisa Atlas Intel, 55% dos cariocas aprovaram a operação, contra 41% que desaprovaram. O Datafolha mostrou números semelhantes: 57% x 39%. Já entre os brasileiros, há um resultado mais parelho: a desaprovação cresce para 45% contra 52% que aprovaram. 

Mas fatos ainda não revelados podem mudar esse quadro. O histórico de algumas décadas mostra que as polícias do Rio matam os “bagrinhos” e acertam propinas com os chefões. Segundo a própria polícia, o CV tem 800 membros apenas nos Complexos do Alemão e Penha. 

Dessa forma o CV perdeu, no máximo, 15% dos seus quadros, que logo serão repostos, enquanto os principais chefes, como Doca e BMW escapuliram. Também é notório que as polícias do Rio combatem o CV para preservar áreas controladas pelas milícias e grupos rivais como TCP e ADA. 

A operação foi recheada de falhas absurdas e perguntas ainda não foram respondidas: Por que não havia policiais isolando a área de mata aguardando o serviço de perícia para os 70 corpos?  Seria para dizer que os tiros na nuca, corpos decapitados e braços decepados teriam sido obra dos familiares para incriminar a valorosa polícia carioca? 

Por que não havia policiais na Praça São Lucas, para onde os moradores levaram os corpos? De acordo com apuração da FSP, dos 99 mortos já identificados, nenhum era um dos 69 réus que faziam parte do processo que baseou a operação. Qual a explicação para isso? E dos 117 civis mortos, apenas 42 tinham mandado de prisão e outros 36 tinham antecedentes criminais. Isso significa que 39 civis mortos não tinham antecedentes criminais. Por que razão foram mortos? 

Por fim, é sintomático que no mesmo 28 de outubro em que ocorreu o massacre no Rio, o fascista Netanyahu, em função da morte de um militar israelense, rompeu o “cessar-fogo” e desferiu um violento bombardeio em Gaza, matando 102 palestinos, incluindo 35 crianças. 

Direita assassina. Aqui e acolá.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan (atual IPEDF) e do Conselho Federal de Economia

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Júlio Miragaya

Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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