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colaboradores, Internacional

Guerra da Ucrânia: não 4, mas 12 anos

A guerra começou em 2013 com o golpe que depôs o presidente Viktor Yanukovych

  • Júlio Miragaya
  • 31/12/2025
  • 12:00

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Foto: @ZelenskyyUa

Júlio Miragaya (*)

Em 24 de fevereiro próximo completará 4 anos da invasão do território ucraniano por tropas russas. A grande mídia considera esta data como a de início da guerra na Ucrânia. Mas, a bem da verdade, a guerra começou muito antes, no final de 2013, com as violentas manifestações na Praça Maiden que resultaram no golpe de Estado que depôs o presidente ucraniano Viktor Yanukovych. 

Que diferença isso faz? Toda! A região invadida e ocupada pela Rússia, compreendendo a Crimeia e os oblasts de Luhansk e Donetsk (no chamado Donbass) e os de Zaporizhia e Kherson faziam parte da chamada Nova Rússia, região tomada do Império Otomano pelo Império Russo no final do século XVIII. 

Da Nova Rússia faziam parte, ainda, os oblasts de Odessa e Mykolaiv. Ela foi inicialmente ocupada por colonos russos, e como o Hetmanato Cossaco Ucraniano (formado em 1657) fazia parte do Império Russo, milhares de ucranianos migraram para a Nova Rússia.

Russos e ucranianos, assim como os bielorrussos, têm a mesma origem nas tribos eslavas orientais, e todos adotaram a religião ortodoxa, separada da Igreja Católica em 1054. A diferenciação ocorreu notadamente no idioma, ainda que muito semelhantes, e em alguns costumes. 

A Ucrânia não existia como unidade política autônoma até a Revolução Russa de 1917, quando os Bolcheviques resolveram conceder autonomia aos diversos povos não russos.

Em “O Estado e a Revolução”, Lênin afirmou: “Pela primeira vez o povo não sentirá de parte do governo a implacável opressão dos camponeses pelos latifundiários, dos ucranianos pelos grão-russos, como acontecia na época do Tzarismo… devemos adotar o imediato restabelecimento de plena liberdade para a Finlândia, Ucrânia, Bielo-Rússia, para os muçulmanos”.

Nesse período havia, de fato, “3 Ucrânias”: a central, originária do Hetmanato Cossaco; a Ocidental, que durante longo período pertenceu à Polônia/Lituânia ou ao Império Austríaco; e a Oriental/Meridional, sob o domínio dos russos. 

Como nessa “Terceira Ucrânia”, originalmente russa, havia um enorme contingente de ucranianos que

para ela migraram, os Bolcheviques, Lênin à frente, cederam-na para a nascente República Socialista Soviética da Ucrânia, integrante da URSS. 

ISOLAR A CHINA – Por décadas os povos russo e ucraniano trabalharam juntos pela consolidação da URSS, sofreram com a ditadura stalinista e combateram os nazistas. Os 12 milhões de russos étnicos conviviam em harmonia com os 36 milhões de ucranianos, sendo que no leste e no sul, mesmo os ucranianos étnicos falavam a língua russa.

Mas com a Revolução Laranja, em 2006, movimento anti-russo estimulado pelos EUA, as coisas começaram a mudar. E, em 2013/14, com as manifestações financiadas e organizadas por ONGs norte-americanas na Praça Maiden, os ataques aos direitos dos russos se intensificaram. 

A direita ucraniana pró-Ocidente e a extrema-direita (Svoboda, Batalhão Azov) exigiam a derrubada do presidente Yanukovich e iniciaram uma série de ataques violentos a órgãos públicos. 

Em fevereiro, o presidente foi expulso de Kiev e Poroshenko, novo presidente eleito, logo iniciou uma série de provocações à população de etnia e de língua russa. A reação da Rússia foi a ocupação da Crimeia, onde 90% da população adota o idioma russo.

Em setembro de 2014 foi assinado o Protocolo de Minsk, que previa autonomia às regiões de maioria russa. Mas, ao invés de cumpri-lo, Poroshenko adotou novas restrições ao uso do idioma russo nas escolas. 

O repúdio a tais medidas pela população do Donbass (onde 70% falam russo) foi respondido com forte repressão pelo exército ucraniano. 

Em 2019, Zelenski foi eleito, financiado por seu patrão Igor Kolomoiski, o mais rico oligarca da Ucrânia. Além de proibir 11 partidos políticos, intensificou os ataques ao uso do idioma russo no leste e sul do País, incluindo restrições à impressão de livros e jornais, execução de músicas e veiculação de programas de rádio e pela TV em russo. 

A reação cresceu e a repressão foi implacável, com pesados bombardeios sobre as cidades do Donbass (mais de 14 mil mortos de 2014 a 2021, a maioria civis, e 3 milhões de russos étnicos deixaram a Ucrânia). A consequência foi a invasão e ocupação pela Rússia dos quatro oblasts onde a população tem o russo como idioma principal.

É importante frisar que esses conflitos de natureza étnica e linguística são o pretexto utilizado pelo imperialismo norte-americano e pela autocracia russa para fazer valer seus interesses políticos e econômicos. 

Com a dissolução da URSS, os EUA, apoiados pela União Europeia, avançaram com a OTAN sobre o Leste Europeu, tendo como objetivo subjugar a Rússia. Putin foi a “arma” encontrada pelos oligarcas russos para manter o controle das grandes corporações constituídas a partir da pilhagem do setor estatal da antiga URSS e impedir que os trustes norte- americanos e europeus se apoderem dos imensos recursos naturais do território russo. 

Usando a Ucrânia como biombo, subjugar a Rússia, trazê-la para a órbita ocidental e isolar a China, eis a “nobre” estratégia norte-americana.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan (atual IPEDF) e do Conselho Federal de Economia

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Júlio Miragaya

Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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