Lucia Ivanow (*)
Um cenário alarmante de aumentos sucessivos e aparentemente coordenados nos preços dos combustíveis se abate sobre o Brasil desde o início de março. A disparada dos valores nas bombas vai na contramão das reduções promovidas pela Petrobras. No Distrito Federal, a escalada, rápida e sem justificativa plausível, expõe indícios claros de prática cartelizada, realizada à luz do dia e sem resposta eficaz das autoridades competentes.
Em poucos dias, o preço do diesel saltou de cerca de R$ 5,95 para valores em torno de R$ 8, com variações mínimas entre postos — um padrão típico de alinhamento de mercado. A justificativa apresentada ao consumidor, frequentemente atribuída à Petrobras, não se sustenta diante dos fatos. Nem mesmo medidas como a retirada de impostos foram capazes de conter a alta.
A gravidade do quadro é ampliada pela inércia institucional. Denúncias esbarram na burocracia, enquanto órgãos de fiscalização tardam a agir. Ainda assim, já há indícios formais de irregularidades envolvendo dezenas de postos, muitos ligados a grupos empresariais conhecidos. Ou seja, não faltam elementos. Falta ação.
Mais preocupante é o ambiente de desinformação. Parte significativa da população é levada a acreditar que os aumentos decorrem exclusivamente de decisões da Petrobras ou do governo federal, quando, na realidade, refletem distorções de mercado e perda de controle estatal sobre o setor.
Esse quadro não surgiu por acaso. É resultado de um processo histórico de enfraquecimento da soberania energética brasileira. Da campanha “O Petróleo é Nosso” à criação da Petrobras, o País construiu, ao longo do século XX, uma base sólida de controle estratégico.
No entanto, decisões posteriores — como a quebra do monopólio estatal, a abertura ao capital estrangeiro e a venda de ativos — alteraram profundamente essa lógica. Mudanças no regime do pré-sal, privatizações e desestatizações recentes reduziram a capacidade do Estado de regular o setor e proteger o consumidor. O resultado é um mercado mais vulnerável a práticas abusivas e menos comprometido com o interesse público.
A imprensa, por sua vez, frequentemente falha ao não contextualizar adequadamente esses movimentos, recorrendo a fontes questionáveis e reforçando narrativas superficiais. Com isso, contribui para a naturalização de aumentos injustificados e para a confusão da opinião pública.
Diante desse cenário, impõe-se uma reação firme. É necessário garantir fiscalização efetiva, punição exemplar e, sobretudo, informação clara e acessível à população. O preço dos combustíveis impacta toda a economia e, quando manipulado, torna-se instrumento de pressão social e política.
Sem transparência, sem ação e sem compromisso com o interesse coletivo, o cidadão permanece refém — não apenas dos preços abusivos, mas de um sistema que insiste em operar contra ele.
(*) Ex-diretora do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF)