Júlio Pontes
Célia Xakriabá, Ana Pimentel, Lêda Borges e Kátia Sastre. Acredito que a maioria esmagadora dos que leem este texto não faz ideia de quem são as mulheres citadas acima – e muito menos o que fazem na vida. Não julgo. Mesmo trabalhando diretamente com política há mais de uma década, eu não saberia listar quem foram as últimas presidentes da Comissão dos Direitos das Mulheres da Câmara dos Deputados sem o auxílio do Chat GPT.
Apesar disso, na última semana, a eleição no colegiado foi capaz de pautar o noticiário nacional. Para entender a repercussão da eleição de Érika Hilton (PSol-SP), é importante ressaltar como são escolhidas as cadeiras de presidentes das comissões temáticas do Congresso Nacional.
A definição se dá por meio de acordos entre as lideranças partidárias, baseados na proporcionalidade das bancadas. Ou seja, o partido com mais representantes tem prioridade e opta pelas presidências das comissões que julgam mais importantes.
O normal é que a primeira opção seja a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), por onde passa a maioria dos projetos da Casa. A Comissão dos Direitos das Mulheres será presidida pela Federação PSol e Rede, que só é maior que o partido Novo e o recém-criado Missão. Isto ilustra que nenhum dos partidos prioriza, de fato, a presidência da Comissão da Mulher.
O objetivo da tentativa de cancelamento de Érika Hilton era simplesmente ganhar engajamento nas redes sociais. Neste sentido, a deputada trans fez do limão uma limonada. Dados obtidos pela plataforma Alliatus revelam que, nos últimos 30 dias, ela ganhou 220 mil seguidores no Instagram; 21 mil no Facebook e 100 mil no TikTok. Sem contar a exposição em veículos de imprensa e afins.
Outro ponto a ser considerado é que, para quem a apoia, ser alvo da extrema-direita é sinal de que se está no caminho certo. É importante lembrar que Hilton não pretende (e nem precisa), até agora, agradar à maioria da população do País ou de São Paulo. Para voltar à Câmara Federal, precisa “apenas” repetir os 256 mil votos que teve em 2022.
Do mesmo modo, os bolsonaristas que chegaram a criar abaixo-assinado com título “Ele não” também não querem os votos da esquerda que vota no PSol. Sendo assim, ganharam visibilidade com uma ação inócua e ineficaz que agrada as suas bases.
Nas redes, Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, chegou a pedir aos seus pares que a Comissão não funcionasse. No entanto, durante todo o seu mandato nunca apresentou um projeto sequer voltado para o público feminino.
Não pretendo dizer neste espaço que apoio um dos dois lados. Não é isso. Mas mostrar que candidaturas proporcionais não têm o objetivo de agradar a maioria e, sim, falar para um público específico. E essa é a beleza do Parlamento democrático: a pluralidade de ideias e representatividade de cada brasileiro na Casa de Leis.