Cecília Garcia (*)
Um dos jogos para celular mais usados para lidar com momentos de micro tédio é o Candy Crush Saga. Criado em 2012 pela empresa King, hoje parte da Activision Blizzard, o passatempo atrai mais de 50 milhões jogadores por dia. Mas, o que muitos desconhecem é a existência de um campeonato mundial do jogo, o Candy Crush All Stars.
O primeiro torneio oficial aconteceu em 2020 e foi considerado a maior competição de um jogo para smartphone. Apenas em 2025, 15 milhões de jogadores participaram ativamente do evento. Em parte, a procura vem de um incentivo nada modesto: a premiação no valor de um milhão de dólares e a chance de competir presencialmente em Londres.
A disputa tem regras simples: abrir o jogo durante o evento, aceitar os termos de participação, jogar níveis elegíveis e coletar doces azuis. Qualquer jogador acima de 18 anos e que esteja no nível 5 ou superior pode entrar no torneio, que acontece na própria plataforma. As fases envolvem qualificatórias, eliminatórias, repescagem e a grande final, em que apenas os 10 jogadores com as maiores pontuações disputam o título.
Durante todo o período do torneio – cerca de quatro meses – são jogados mais de 2 mil níveis, sendo executados entre 70 mil e 150 mil movimentos. Ou seja, para que um competidor chegue à final, ele precisa ter velocidade mental e reflexos apurados, além de contar com disciplina e boa saúde física para aguentar os longos períodos à frente do celular.
Longe de ser uma brincadeira de criança, os jogadores mais ferrenhos dedicam várias horas por dia ao passatempo. Bem Shoham, o israelense vencedor da disputa de 2024, afirmou em entrevistas publicadas pela King que chegava a treinar cinco horas por dia em preparação para o torneio.
O empenho é tão grande que, nas comunidades de Candy Crush Saga na rede social Reddit, é possível encontrar relatos de pessoas que pediram dias de folga no trabalho para se dedicar ao treinamento.
Mas, além do espírito competitivo, existem outras explicações para o comprometimento de alguns jogadores. Um estudo de 2015 identificou que os usuários do aplicativo são motivados, em sua maioria, pela possibilidade de jogar a qualquer hora e em qualquer lugar, pelo entretenimento e pela socialização promovida por meio da integração do aplicativo com as redes sociais.
O senso de realização ao passar de fase e o relaxamento também foram apontados como grandes incentivadores psicológicos para a intensidade da jogatina. Se essas são razões suficientes para entrar na competição, eu não posso dizer. Mas sei que estou na fase 2993 e passei e sobrevivi à primeira eliminatória.
(*) Jornalista | Mestre em Comunicação