Júlio Miragaya (*)
Após o criminoso ataque à Venezuela e as ameaças ao Irã, o imperialismo norte-americano voltou suas baterias para seus submissos aliados europeus. Anunciou que anexará a Groenlândia, possessão dinamarquesa e maior ilha do mundo, “por bem ou por mal”, ou seja, comprada ou tomada. Os dóceis aliados europeus clamaram pela soberania nacional (que desconsideraram quando os EUA atacaram a Venezuela e o Irã) e enviaram um tímido contingente militar para a ilha, mas já se desculpando, dizendo se tratar de missão técnica. Patético! Não satisfeito, Trump retaliou, punindo oito “aliados” com tarifaço de 10%.
Posição correta teve o França Insubmissa, principal partido da esquerda francesa, que, por meio de Clémence Guetté, vice-presidente da Assembleia Nacional, propôs a saída da França da OTAN, sob o argumento de que “a OTAN não protege a Europa de intervenções predatórias”. Mais que isso, ela não passa de uma aliança bélica e agressiva que deve ser dissolvida.
Mas por que tanto interesse na imensa e gelada ilha de 2,16 milhões de Km², quatro vezes maior que a França e 50 vezes maior que a Dinamarca? São três motivos principais: aumentaria a área territorial dos EUA de 9,37 milhões Km² para 11,54 milhões; colocaria sob seu controle as enormes riquezas minerais de seu subsolo e lhes propiciaria posição favorável no controle das rotas do oceano Ártico.
COLONIZAÇÃO – A Groenlândia começou a ser habitada tardiamente, em 3000 AC, com a chegada de povos árticos vindos do Canadá, Alasca e Sibéria. Inicialmente povos da cultura Dorset e, posteriormente, dos Thule, antepassados do povo Inuíte. Viviam da caça de focas e baleias. Os inuítes correspondem ainda hoje à ampla maioria da população groenlandesa (85% dos 58 mil habitantes), havendo ainda 10% de europeus e 5% miscigenados.
Além dos 50 mil inuítes na Groenlândia há 65 mil no vizinho Canadá (nos territórios de Nunavut e Territórios do Noroeste), 15 mil no Alasca e alguns milhares na Sibéria. A maioria dos groenlandeses é bilíngue em kalaallisut (língua inuíte) e dinamarquês.
Em 985 DC ocorreu a chegada de europeus, colonos nórdicos oriundos da Noruega que habitavam a Islândia. Não mais que 5 mil deles fundaram colônias e formaram fazendas onde criavam ovinos e caçavam baleias, focas e morsas, das quais extraíam as presas (marfim) comercializadas na Islândia e Noruega.
Em 1261 os colonos aceitaram a soberania norueguesa, mas a partir de 1380 o Reino da Noruega ficou unido (e subordinado) ao Reino da Dinamarca, subordinação consolidada com a constituição em 1397 da chamada União de Calmar, englobando Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e as colônias da Islândia, Ilhas Feroes, Groenlândia, Ilhas Órcades e Shetland.
Já em fins do século XIV começou a saída dos nórdicos da Groenlândia, provavelmente em função da “Pequena Idade do Gelo”, esgotamento das pastagens e extinção das morsas e a partir de 1430 houve seu total despovoamento. Em 1523 se deu o fim da União de Calmar e em 1536, a Dinamarca (ainda subordinando a Noruega) reivindicou a posse da Groenlândia, mesmo sem qualquer ocupação.
INDEPENDÊNCIA – Durante os séculos XV, XVI e XVII, ainda que desabitadas por europeus, as costas da ilha eram exploradas por barcos dinamarqueses, ingleses, holandeses e alemães que faziam a caça às baleias.
Passados 3 séculos, em 1721 uma expedição religiosa e mercantil dinamarquesa à ilha gerou o reinício do povoamento. Em 1815, no Congresso de Viena, a Noruega se separou da Dinamarca (ficou subordinada à Suécia), com a Groenlândia permanecendo colônia dinamarquesa. Em 1905 a Noruega se tornou independente da Suécia e passou a reivindicar a posse da Groenlândia, pleito recusado pela Corte Internacional de Justiça em 1933.
Durante a 2ª Guerra Mundial, em 1941, o governo dinamarquês no exílio permitiu aos EUA a montagem de uma base militar na ilha e em 1953 a base de Thule (atual Pituffik) se tornou permanente e em 1959 foi criada pelos EUA a base militar de Camp Century (fechada em 1969) para lançamento de mísseis nucleares.
Antes, em 1953, a Groenlândia deixou de ser colônia e passou a integrar o Reino da Dinamarca, e em 1979 conquistou autonomia, inclusive com a população votando em 1982 pela saída da UE. Mas somente em 2009 um governo próprio assumiu a condução dos negócios internos, mas não a independência.
Em síntese, se não faz sentido a anexação da Groenlândia pelos EUA, tampouco faz continuar fazendo parte da Dinamarca, da qual está distante 3.500 Km. Trata-se de um dos últimos resquícios do colonialismo europeu, assim como a Guiana Francesa e diversas ilhas caribenhas, que ainda permanecem como possessões da Grã-Bretanha, França e Holanda.
Nem possessão norte-americana, nem dinamarquesa. Que a Groenlândia seja o 36º país independente das Américas, conforme desejo dos groenlandeses!
(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan (atual IPEDF) e do Conselho Federal de Economia