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Após mudança para os EUA, cineasta José Padilha faz críticas à polícia do Rio

  • Redação
  • 22/07/2015
  • 13:40

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Depois de se mudar para Los Angeles, dizendo-se ameaçado no Rio, o cineasta, que dirigiu \”Tropa de elite\” (1 e 2) e \”Ônibus 174\”, entre outros filmes, volta a criar polêmica. Ele afirma que abandonou a cidade sem registrar uma suposta tentativa de sequestro porque não confia na polícia,\”que só consegue resolver 3% dos homicídios\”.

O senhor foi alvo de uma tentativa de sequestro?

É difícil saber o que foi, mas vou descrever o que aconteceu e você tira suas conclusões. Eu estava no meu escritório, na produtora Zazen, quando uma pessoa ligou. Na hora, eu montava um documentário com Marcos Prado. A Zazen é uma produtora muito pequena, na Rua Visconde de Carandaí (no Jardim Botânico), tem pouca gente. Quem atendeu foi uma secretária. Do outro lado da linha, um homem perguntou: “o José Padilha está aí?”. Ela respondeu que sim, e perguntou: “Quem quer falar com ele?”. O homem respondeu: “É o Ricardo, da Rede Globo. Mas não precisa falar com ele. É só para confirmar, porque eu estou indo para aí, para uma reunião”.

O senhor foi informado da ligação?

Não, a secretária deixou para lá, não me falou nada. Dez minutos depois, veio uma motocicleta pela contramão da Visconde de Carandaí e uma outra em sentido contrário. Um carro parou na esquina com a Rua Pacheco Leão. Soube disso porque duas câmeras estão instaladas em frente à produtora.

E o que aconteceu depois?

Dois caras desceram das motos e tocaram a campainha. A secretária achou muito esquisito: calça jeans, camisa para fora da calça… Não abriu a porta e chamou o Guaraci. Guaraci ajuda a gente em todos os filmes e trabalhou com o Rodrigo Pimentel (comentarista de segurança do “RJ-TV, da Rede Globo, e ex-oficial do Bope). Guaraci é muito esperto, percebeu que os dois estavam armados, virou para mim e falou: “Zé, tem alguma coisa estranha. Você está esperando alguma pessoa da Rede Globo?”. Não tinha reunião alguma, senti que era roubada. Liguei para a segurança da rua, mas ninguém atendeu. Em seguida, Guaraci foi até o muro falar com os caras, que perguntaram: “Cadê o Padilha?”. Guaraci respondeu: “Ele não está aqui, não posso abrir”. Um dos homens ordenou: “Abra a porta”.

E o que aconteceu depois?

Pânico. Não tinha ninguém armado, não tinha como a gente se defender. Se os caras quisessem, arrombavam a porta.

E qual foi a solução?

Você vai rir: peguei uma arma de mergulho, puxei o elástico e fiquei em frente à porta, pronto, para, no caso de uma invasão, arpoar o primeiro. Do lado de fora, os caras usavam um rádio para falar com o comparsa que estava na esquina, no carro. Até que desistiram e foram embora.

O senhor procurou a polícia, registrou queixa?

Não registrei. Não dá para confiar numa polícia que só consegue resolver apenas 3% dos homicídios. Depois, falei com Pimentel, e ele sugeriu que eu contratasse seguranças. Explicou que eu precisava de seguranças em dois turnos. Ele disse: “Vai ter que contratar para você, sua mulher e seu filho”.

O senhor contratou?

Contratei, mas chegou uma hora que não valia a pena. Não queria viver assim no Brasil, andando com seguranças. Fiquei duas semanas e resolvi sair do país. Recebi um convite para filmar “Robocop” e aceitei.

E o que o senhor acha que aconteceu?

Na época de “Tropa de elite 2”, 14 policiais entraram na Justiça contra a gente, pedindo indenização, alegando constrangimento. Perderam a ação e ficaram irritados. Ficou uma desconfiança. Agora, eu pergunto: foi uma tentativa de sequestro? Uma tentativa de vingança? Difícil dizer.

Como o senhor vê o Rio hoje?

O Rio perdeu a sensibilidade diante do absurdo. Veja o caso da morte do médico (Jaime Gold) na Lagoa. Ele foi esfaqueado por ladrões que roubaram sua bicicleta. Isso não é um absurdo? E não foi o único caso, conheço outras duas pessoas que sofreram a mesma coisa. Foram esfaqueadas durante assaltos na Zona Sul. Isso sem contar com os episódios da Zona Norte. Estamos vivendo uma barbárie e não nos damos conta disso. O projeto das UPPs só funcionará mesmo quando ocuparem os batalhões, pacificarem a polícia. Veja: uma parte dos policiais que entrou com processo contra o “Tropa de Elite 2” foi presa, sob acusação de corrupção. Não é possível apostar no sucesso de projeto algum se a polícia for a mesma, se continuar corrupta. É preciso mudar tudo na formação dos policiais.

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