Nathália Guimarães
A Polícia Federal (PF) abriu inquérito, na segunda (9), para investigar os autores da trend “treinando caso ela diga não”, que viralizou no TikTok com vídeos em que homens simulam socos, golpes e facadas após uma rejeição amorosa. O caso mobilizou o governo federal e provocou reações no Congresso e no Ministério Público Federal.
A investigação é conduzida pela Diretoria de Crimes Cibernéticos da PF, que solicitou às plataformas digitais a remoção do material, além do fornecimento de dados dos responsáveis pelas contas que divulgaram o conteúdo. Os vídeos, segundo a corporação, podem configurar incitação ou apologia à violência de gênero, crime com pena de três a seis meses de prisão e multa. Em situações mais graves, como a incitação ao feminicídio ou à violência psicológica contra a mulher, as punições podem incluir enquadramentos em outros dispositivos do Código Penal e da Lei Maria da Penha.
A repercussão levou o governo Lula a exigir esclarecimentos da plataforma. O Ministério da Justiça e Segurança Pública enviou um ofício ao TikTok para que a empresa explique como conteúdos do tipo circularam e quais medidas estão sendo adotadas para impedir sua disseminação. E pediu detalhes sobre os sistemas de moderação da rede social, incluindo mecanismos automáticos de identificação de conteúdo violento, monitoramento de tendências virais e possíveis falhas no algoritmo de recomendação, além de questionamentos se os vídeos chegaram a ser monetizados ou impulsionados.
Em nota conjunta, os ministérios das Mulheres e da Justiça e Segurança Pública classificaram os vídeos como graves e afirmaram que conteúdos desse tipo contribuem para naturalizar a violência de gênero. “A banalização de agressões nas redes sociais pode estimular comportamentos violentos fora do ambiente digital e reforçar padrões culturais que desrespeitam os direitos das mulheres”.
Caso chega ao Congresso
O tema também mobilizou o Congresso Nacional. A Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou, na terça-feira (10), um requerimento para que a Procuradoria-Geral da República investigue os vídeos virais. O pedido foi apresentado pelo deputado Pedro Campos (PSB-PE). “As reações encenadas envolvem condutas agressivas, ameaçadoras ou constrangedoras”, argumentou o parlamentar no documento.
Além da solicitação de investigação, Campos pede que as plataformas forneçam dados sobre o alcance das publicações, informações de autoria e detalhes sobre as medidas adotadas para remover os conteúdos.
Paralelamente, a deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) protocolou representação no Ministério Público Federal (MPF) pedindo a abertura de investigação que identifique os responsáveis pelas contas que produziram ou administraram os conteúdos e avalie a responsabilização das plataformas digitais pela circulação das publicações.
Após a divulgação do caso, o TikTok começou a remover postagens relacionadas à trend. “Nosso time de moderação segue atento e trabalhando para identificar possíveis conteúdos sobre o tema. Não permitimos discurso de ódio, comportamento violento ou promoção de ideologias de ódio”, informou a empresa.
Misoginia virtual
A viralização da trend ocorre em meio ao aumento da violência contra mulheres no Brasil, dentro e fora das telas. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o país registrou, em 2025, 1.568 feminicídios, o maior número dos últimos dez anos.
Outro fator que ajuda a explicar a alta crescente de casos é a influência da chamada “machosfera”, conjunto de comunidades virtuais voltadas ao público masculino que difundem discursos misóginos e contrários ao feminismo.
Relatório do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou, em 2024, a existência de 137 canais no YouTube com conteúdos marcados por discurso de ódio ou desprezo contra mulheres. Dois anos depois, 123 deles permanecem ativos e somam mais de 23 milhões de inscritos.
Além do crescimento do público, a produção de conteúdo também aumentou. Os canais analisados acumulam cerca de 130 mil vídeos publicados, aproximadamente 25 mil a mais do que no levantamento anterior.