Júlio Miragaya (*)
Em um surpreendente surto de sincericídio, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em conversa telefônica captada pela Polícia Federal, disse: “Esse negócio de banco, sempre falei que é igual máfia”. Repare que essa fala não foi de um militante esquerdista ou de um bancário revoltado com o patrão. Foi de um banqueiro que vive nesse meio há 8 anos, quando adquiriu o Banco Máxima.
As similaridades entre a atividade bancária e práticas mafiosas são antigas. Dos séculos XV a XVII, a ameaça da Igreja Católica de excomungar quem praticasse a usura abriu espaço para banqueiros judeus, como Jakob Fugger, Issac de Pinto e Isaac Abravanel, sem impedir, contudo, as operações dos católicos Médici. Com a superação do “constrangimento cristão” pelos reformistas Lutero e Calvino, as atividades bancárias prosperaram.
As maquinações do banco germano-britânico Rothschild e do norte-americano JP Morgan fazem a Cosa Nostra ou a Camorra parecerem coisa de amador. Como também as operações do Deutsche Bank e do Dresdner Bank (atual Commerzbank), principais financiadores do regime nazista, e do Schweizerische Kreditanstalt (atual Credit Suisse), que lavava o ouro e outros ativos roubados dos judeus na 2ª Guerra.
Jean Ziegler, no livro “A Suíça lava mais branco” (1990), denunciou que os dois bancões suíços (Credit Suisse e UBS) movimentavam diariamente na Câmara de Compensação de Zurick, sob sigilo, nada menos que 70 bilhões de francos suíços (hoje, 75 bilhões de dólares), sendo grande parte egressos do tráfico de drogas, de armas, evasão fiscal, extorsão e corrupção.
Mais recentemente, na crise de 2007/8, as traquinagens do Lehman Brothers, Bear Stearns, Merril Lynch, Washington Mutual Bank geraram perdas de US$ 700 bilhões nos EUA e uma crise econômica que fez o planeta perder milhões de empregos e cerca de US$ 15 trilhões em termos de regressão do PIB.
No Brasil a história nos legou, entre outros, o mafioso Magalhães Pinto, do Banco Nacional, financiador do golpe de 64; o mafioso Ângelo Calmon de Sá, fraudador do Banco Econômico; e o mafioso Sílvio Santos, do Panamericano. E o que são André Esteves, do BTG Pactual, e Guilherme Benchimol, da XP? Alguém colocaria a mão no fogo pelas operações do Itaú e do Bradesco?
Portanto, ao associar os bancos à máfia, Vorcaro foi apenas sincero. E sua atuação como banqueiro nos faz perceber a curiosa semelhança do Master com o banco italiano Ambrosiano, que quebrou em 1982. Assim como Roberto Calvi, “o banqueiro de Deus”, cabeça do Ambrosiano, Vorcaro também estabeleceu uma vasta rede de relações com as esferas de poder.
Se Calvi tinha relações próximas com a Democracia Cristã e o PSI, Vorcaro tinha “amigos” no PP, PL e União Brasil. As relações passavam também pela Igreja. Calvi tinha a seu lado cardeais do Vaticano. Já Vorcaro se contentava com a Igreja da Lagoinha. Se Calvi tinha no arcebispo Paul Marcinkus seu operador, Vorcaro tinha o pastor Fernando Zettel.
Mas as semelhanças não param por aí. Se Calvi tinha seus contatos no Judiciário, como Uzo Zilletti, do Superior Tribunal de Justiça, Vorcaro tinha suas relações com ministros do Supremo. E se o esquema de Calvi tinha o envolvimento da Casa Nostra, a violenta Máfia Siciliana, o de Vorcaro contava com o “sicário” Philipi Mourão e sua “turma”. Aliás, assim como Calvi foi provavelmente “suicidado” em Londres numa “queima de arquivo”, o mesmo parece pode ter sucedido com o “sicário” Mourão.
A diferença é que o esquema do Banco Ambrosiano tinha na Loja Maçônica P2, comandada por Licio Gelli, um suporte de peso, com 49 banqueiros e 18 magistrados entre seus 962 membros. Até agora não se identificou a participação da Maçonaria Brasileira no esquema do Master. Mas é prudente aguardar, pois o envolvimento dos maçons Temer, Malafaia ou Kassab não surpreenderia ninguém.
Os rombos gerados pelo Master (R$ 40,6 bilhões), Will Bank (R$ 6,3 bi) e Banco Pleno (4,9 bi), correspondem a 40% dos recursos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o que obrigou os demais bancos, como financiadores do Fundo, a antecipar o aporte de R$ 32,5 bilhões. E, claro, essa dinheirama não sairá de suas margens de lucro, mas dos clientes, via aumento das tarifas e spread bancários.
A especulação financeira, que envolve produtos financeiros sofisticados, como as operações com derivativos, certificados de operações estruturadas, junk bonds, penny stocks, mercado de câmbio e até as pirâmides financeiras, solapam as economias nacionais e as colocam em risco permanente de ter que lidar com quebradeiras.
Os bancos são o principal instrumento da predação capitalista. Ciente disso, a China pautou seu excepcional crescimento econômico até adotando práticas capitalistas, mas mantendo os bancos sob controle estatal. Enfim, Vorcaro é certamente um trambiqueiro da pior espécie, mas um trambiqueiro sincero.
(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia