Júlio Miragaya (*)
O desempenho da atividade industrial no Brasil nas últimas quatro décadas tem suscitado intenso debate entre os economistas de todos os matizes, desde os liberais até os keynesianos e marxistas. Se discute muito se o País passa por um processo de desindustrialização; como reverter o atraso tecnológico em nossa indústria; se é possível reverter a reprimarização de nossa pauta de exportação etc. Mas um aspecto pouco debatido tem sido o processo de deslocamento da atividade industrial, notadamente a migração da indústria das regiões metropolitanas em direção às cidades de porte médio do interior.
Estudo publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) intitulado “Cidades Industriais Brasileiras: emprego, renda e nível de atividade no período 2002/2021”, revela que o emprego na indústria manufatureira brasileira cresceu de 5.21 milhões em 2002 para 7.62 milhões em 2021 (embora tenha atingido seu ápice em 2013, com 8,29 milhões de empregos). E revela também desempenhos radicalmente distintos entre as várias cidades e regiões do País.
A partir de 1930 e até meados da década de 1970, as regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro receberam a maior parte dos investimentos industriais do Brasil e chegaram a concentrar 57% da produção industrial nacional nos anos 1970. Nas duas décadas seguintes, houve um espraiamento da atividade industrial, direcionada, sobretudo, para as regiões metropolitanas já com relevantes parques industriais, como as de Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador.
Na sequência, esses investimentos alcançariam Curitiba, Fortaleza e Manaus, mas também chegaram a algumas cidades de porte médio, particularmente no estado de São Paulo, como Campinas, Sorocaba, São José dos Campos, Piracicaba e Jundiaí, e também de outros estados, como Joinville e Blumenau (SC); Caxias do Sul (RS); Juiz de Fora e Ipatinga (MG) e Volta Redonda (RJ).
Ocorreu, contudo, nas duas últimas décadas, uma grande ampliação do número de cidades de porte médio contempladas por esse processo de desconcentração industrial. São diversas as razões apontadas para tão intenso deslocamento. As principais são a disponibilidade de infraestrutura – notadamente rede de transportes, de telecomunicação – e oferta de energia segura; a disponibilidade de mão-de-obra qualificada; infraestrutura urbana e serviços públicos de qualidade e até baixa capacidade de mobilização sindical.
A ampliação da malha rodoviária do país, com rodovias duplicadas (mais seguras) e uma malha ferroviária em ampliação tem sido um dos fatores mais importantes para o processo de desconcentração industrial em curso, pois permite conexão mais rápida e barata com os principais centros consumidores e portos do País.
Do mesmo modo, a integração nacional da rede de energia elétrica concorreu para a instalação de plantas industriais no interior do país, assim como a instalação de cursos técnicos, notadamente instalações do Senai e dos Institutos Federais de Educação, fazendo com que investidores pudessem prescindir de buscar profissionais qualificados nos centros metropolitanos.
A desconcentração industrial, contudo, é seguida por um processo de reconcentração, notadamente no interior de quatro estados: 61% do crescimento do emprego na indústria (1,47 milhão do total de 2,41 milhões) ocorreu em São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Paraná.
Em São Paulo, não obstante a perda de quase 100 mil empregos na capital e de alguns milhares nos municípios de sua região metropolitana, o crescimento foi de 543 mil empregos entre 2002 e 2021 devido ao forte crescimento em cidades como Limeira, Araraquara, Rio Claro, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, além das citadas anteriormente.
Também em Santa Catarina, o aumento de 327 mil empregos industriais se deu quase exclusivamente nas cidades de porte médio, notadamente as do nordeste do estado, destacando-se Jaraguá do Sul, Itajaí e Brusque, além das já citadas Joinville e Blumenau, mas também Chapecó, no Oeste.
No Paraná, houve o aumento de 295 mil empregos no período em que a queda ocorrida em Curitiba (de 26 mil empregos nos últimos dez anos) e em São José dos Pinhais (principal cidade industrial de sua região metropolitana) foi largamente compensada pelo incremento nas regiões metropolitanas de Londrina e Maringá, em Ponta Grossa e principalmente na aglomeração Cascavel/Toledo.
Já em Minas, o incremento de 306 mil empregos industriais se deu notadamente em Uberlândia, Uberaba, Montes Claros e Sete Lagoas. Outras cidades de porte médio no País também tiveram forte incremento no emprego industrial, como Bento Gonçalves e Erechim (RS); Feira de Santana, Campina Grande, Vitória da Conquista e Sobral (Região Nordeste); Anápolis, Rio Verde e Três Lagoas (Centro-Oeste) e Marabá (Norte).
É um novo mapa da indústria que vai sendo desenhado no Brasil.
(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia