Júlio Miragaya (*)
Passados 10 dias do ataque militar norte-americano a Caracas, em 3 de janeiro, muito se tem discorrido sobre o que aconteceu no país vizinho. As narrativas e opiniões, naturalmente, se adequam ao perfil ideológico dos autores, e o que se vê é uma miríade de mistificações, especulações e informações desencontradas. Mas a verdade é que há algumas questões que podem sinalizar o rumo da situação por lá.
Antes de tudo, é necessário classificar como absolutamente ilegal e flagrante violação do direito internacional o bombardeio e o sequestro do presidente Maduro, sob a cínica ‘justificativa’ de que ele era líder de um cartel de drogas, fato negado pela própria justiça dos EUA. O que o imperialismo norte-americano fez, mais uma vez se lixando para as estéreis declarações da ONU, OEA e outras instituições internacionais, não se distingue muito do que já fez no Iraque, Afeganistão, Sérvia, Líbia e, mais recentemente, no Irã.
A morte de mais de 100 pessoas (incluindo 32 militares cubanos) e os mais de 120 feridos se enquadram nos hipocritamente chamados ‘danos colaterais’, assim como os mais de 70 mil mortos no massacre em Gaza perpetrado por seu aliado Israel.
Após bombardear a Venezuela, Trump ameaçou a Colômbia e ameaça enviar tropas para o território mexicano para combater os cartéis de drogas do país, ‘se esquecendo’ de que a indústria armamentista norte-americana é a principal fornecedora de armas e munições desses cartéis.
Enquanto isso, aqui no Brasil mais uma vez o clã Bolsonaro e os governadores presidenciáveis de direita (Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr.) se ajoelharam perante Trump.
COOPTAÇÃO – É inegável que houve falhas gritantes no dispositivo de segurança venezuelano. O quanto decorreu de erros das equipes e o quanto se deveu a atos de traição de agentes na cúpula do regime, só o tempo nos dirá.
É evidente que nesse tipo de ação, torna-se indispensável infiltrar agentes na equipe de segurança do alvo e corromper ou cooptar agentes dessa equipe. Há inúmeros exemplos nesse tipo de ação mundo afora. Resta saber se isso foi determinante para o sucesso da ação ou se as falhas gritantes explicam a derrocada do dispositivo de segurança venezuelano.
Sobre isso é interessante observar o relatório do governo cubano que detectou o seguinte: falha no controle de informações sobre os preparativos dos EUA; falha da contrainteligência venezuelana; traição interna (localização precisa de Maduro) e colapso operacional e inação tática (não combate ao agressor, o que sugere falta de comando ou traição).
O relatório afirma que “o sequestro de um chefe de Estado no coração de sua capital não é um simples revés, mas, sim, a evidência de que o sistema de defesa e proteção colapsou desde seus fundamentos”.
E conclui: “A combinação de traição interna, paralisia do comando e inação da defesa aérea converteu uma operação de altíssimo risco em uma simples incursão de precisão. Com o tempo poderemos ver o que sucedeu, o que falhou. Porém, sobretudo, veremos segundo as ações dos atores, quem traiu o presidente Maduro”.
CAPACHOS – Por fim, também é inegável que a vice-presidente e atual presidente interina Delcy Rodriguez fez a opção de negociar com os EUA. Ainda não se sabe ao certo os termos. Mas, após afirmar no mesmo dia do ataque que “jamais seremos colônia de qualquer império”, mudou radicalmente o tom na noite de domingo (4): “Convidamos o governo dos EUA a colaborar conosco em uma agenda de cooperação orientada para o desenvolvimento compartilhado”.
Na sequência, seu governo procedeu a libertação de presos políticos, antecipou o desejo de restabelecer as relações diplomáticas com os EUA, rompidas desde 2019 e anunciou a viagem de uma delegação diplomática a Washington.
De seu lado, Trump sinalizou o desejo de se entender com Delcy, descartando qualquer apoio a Maria Corina e seu fantoche Rodriguez Urrutia “por não terem apoio ou respeito dos venezuelanos para governar”.
Em seguida ameaçou: “Se ela não fizer o que é certo, vai pagar um preço muito alto”, para em seguida assoprar, dizendo que um segundo ataque não parece necessário, concluindo que EUA e Venezuela estão trabalhando bem juntos.
Pouco interessado em reproduzir o demagógico discurso pró-democracia de seus capachos europeus (afinal, para isso teria também que bombardear a Arábia Saudita, EAU, Egito etc.), talvez Trump calcule que o custo de uma aventura militar na Venezuela seja, econômica e politicamente, muito elevado, e que a manutenção do regime chavista sem Maduro possa ser o melhor caminho para colocar as imensas reservas venezuelanas de petróleo à disposição das corporações petrolíferas norte-americanas.
Por seu turno, teria Delcy outra alternativa que não negociar com o algoz? Teria condições de resistir a uma nova ofensiva dos EUA? Talvez ela entenda que a Venezuela não seja Cuba nem o Vietnam, e que Maduro não seja Castro nem Ho Chi Minh, sequer Chavez.
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