Ana Luisa Araujo e Antônio Sabino (fotos)
A expressão popular “quem não tem cão, caça com gato” resume bem a realidade enfrentada por usuários de ônibus do Distrito Federal e do Entorno. Com a oferta insuficiente de transporte público, especialmente onde não há metrô, a maioria é obrigada a buscar alternativas.
Uma delas é o mototáxi, que se popularizou em cidades como São Sebastião, Sobradinho, Formosa e Valparaíso. Se, para uns, a opção é apenas um quebra-galho, para outros é a única forma de sustentar a família, mesmo diante dos riscos no trânsito.
Na Quadra 2 de São Sebastião, Raimundo Espírito Santo, 56, é mototaxista há mais de 12 anos. Ele divide seu tempo entre o transporte de passageiros e a construção civil. Mas é sobre duas rodas que sente mais tranquilidade para trabalhar. A chave para o sucesso nesta profissão, relata, está na responsabilidade.
“A gente carrega pessoas de todas as idades, inclusive senhoras e pessoas com mais de 60 anos. Não é como carregar uma embalagem. Temos que tomar muito cuidado com o cliente. A responsabilidade é enorme”, afirma.
PREÇO DAS CORRIDAS – Com o passar do tempo, Raimundo percebeu a necessidade de cuidar não apenas das corridas, mas também da organização do ponto onde trabalha. Ressalta que, embora não seja chefe dos outros mototaxistas, é ele que organiza a logística – é encarregado de questões administrativas e mantém o local em funcionamento. Tudo para garantir o bom atendimento e a conversa cortês com os clientes.
“O bom dia é muito importante. A conversa, quando existe, deve ser curta, porque o cliente está ali por necessidade, não para fazer amizade”, aponta. A rotina dele e dos outros mototaxistas que rodam na região também envolve outro quesito importante: o preço das corridas é baixo.
“Sempre tentamos flexibilizar conforme a situação financeira do cliente. Muitas vezes, o bom atendimento é o que faz a diferença”, garante. E é no esforço para manter a qualidade e a segurança do serviço que os sonhos se tornam realizações e inspiram a luta do dia a dia. “Tem colegas meus que estão pagando, com o dinheiro do mototáxi, a prestação de lotes e até mesmo de casas”, conta.
Risco constante
Paulo Ricardo Teixeira, 38 anos, trabalha como mototaxista há mais de uma década e vê a ocupação de outra perspectiva. Na avaliação dele, o principal desafio são os acidentes e a falta de respeito dos motoristas.
“A profissão é perigosa. Às vezes, a corrida dura menos do que o tempo que a pessoa leva para fazer o pagamento via Pix. Você pode ser assaltado, atropelado ou até sofrer um acidente”. E desabafa. “Se você cair, o dono do ponto em que você trabalha nem vai lá saber se você está vivo”.
Apesar dos pontos negativos, Teixeira destaca que a profissão pode trazer um bom ganha-pão, mas alerta que a carreira não leva à luxúria. “Tem dias que a gente ganha bem, mas tem dias que mal dá para cobrir as despesas. No fim das contas, o que vale é conseguir se manter”, resigna-se.
Experiência semelhante à vivida por Alexandre Jesus dos Santos, 43 anos, que é mototaxista em Valparaíso desde 2007 e se orgulha de nunca ter sofrido acidentes. “Para mim, é tranquilo. Não vejo necessidade de correr. Colocar a minha vida e a do passageiro em risco não vale a pena”.
O segredo, revela ele, está em manter uma direção defensiva e não se precipitar. “Muitos mototaxistas andam correndo, colocando a própria vida, a do passageiro e de outras pessoas em risco. Eu prefiro andar tranquilo, na manha, para evitar acidentes. Tem motoqueiro que vê um cruzamento e já vai entrando. Não pode ser assim”, ensina.
Regulamentação no DF
Ainda que os mototáxis se desloquem livremente pelas ruas da cidade, o serviço não é regulamentado no DF. Em fevereiro de 2014, na gestão do ex-governador Agnelo Queiroz (PT), uma lei chegou a instituir o meio de transporte na capital.
Porém, na prática, nunca saiu do papel, porque a legislação previa que as regras – identidade visual, características das motos e até o uso obrigatório de balaclava pelos passageiros – seriam criadas em 90 dias, o que jamais ocorreu.
Outro problema apontado pelas fontes ouvidas pela reportagem é a concorrência considerada desleal com o transporte por aplicativo e, até mesmo, bicicletas. Prova disso é que o número de mototaxistas caiu de 40 para 17 em um ponto de São Sebastião, como observa Raimundo Espírito Santo.
Em discussão na CLDF
A cerca de 25 quilômetros dali, na Câmara Legislativa, o tema segue em debate. O distrital Max Maciel (Psol), que é presidente da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana, entende que a regulamentação específica para o mototáxi é urgente.
“A regulamentação do transporte de passageiros por motocicletas no DF segue a legislação federal, mas não temos uma regulamentação específica que permita uma operação legalmente estruturada no DF”, explica.
Maciel salienta que, sem regras claras, os trabalhadores ficam expostos a todo tipo de risco. “Nos estados onde o mototáxi já funciona, os índices de acidentes e até de violência são elevados. A preocupação não é vetar a atividade, mas garantir que qualquer modelo de regulamentação priorize a segurança de passageiros e mototaxistas”, defende o deputado.
Ele acrescenta, ainda, que o investimento em mobilidade no Distrito Federal deve estar focado no fortalecimento do transporte público coletivo. “O mototáxi é uma resposta à deficiência do transporte coletivo em algumas áreas, mas a solução deve vir com a ampliação e eficiência do transporte público de massa, para que as pessoas possam contar com alternativas seguras e estruturadas”, conclui.
INFRAESTRUTURA — O distrital Rogério Morro da Cruz (PRD), representante de São Sebastião na CLDF, sustenta que a regulamentação do mototáxi é essencial para assegurar infraestrutura adequada aos mototaxistas, como pontos de apoio com banheiros e locais de descanso.
“Além disso, são necessárias regras claras sobre qualificação dos condutores e direitos tanto para trabalhadores quanto para passageiros”, argumenta, ao citar que a formalização do serviço traria mais reconhecimento para a categoria.
“O mototáxi se tornou uma alternativa de transporte nas periferias muito em razão da deficiência do transporte público. Meu compromisso é trabalhar para que esse serviço seja devidamente reconhecido e valorizado, pois vejo diariamente como ele beneficia nossa população”, diz Rogério Morro da Cruz.