Você não conhece o Menos É mais

gabrielpontesPor ,16/12/2020 às 16:13, Atualizado em 16/12/2020 às 16:29

Colunista da Época despreza o samba brasiliense e mostra desconhecimento da cultura da capital

Desde quando chegou ao Brasil, trazido pelos negros africanos escravizados, o samba vive de romper barreiras, enfrentar estigmas e conquistar corações. Em 2020, o novo desafio do mais brasileiro dos ritmos é provar-se como uma paixão nacional – e não regional.

O colunista da revista Época Lucas Prata Fortes escreveu em seu Twitter, na terça-feira (15): “Com todo o respeito que Brasília e seus moradores merecem, mas o conjunto de pagode mais ouvido do Brasil não pode, em momento algum da história, vir do Distrito Federal”.

O jornalista apenas escancarou o que todos os músicos que fazem samba já sabiam. Sem citar, tampouco conhecer a história, Fortes critica o grupo brasiliense Menos é Mais, sob o argumento de que não pode surgir em Brasília um fenômeno do mais brasileiro dos ritmos.

Lucas Fortes reflete, sem filtros, a reação da branca elite intelectual do sudeste do Brasil. Até há pouco tempo, a mesma casta pintava o samba como um ritmo libertino. Hoje, o protege como um patrimônio nacional, mas de uso exclusivo dos cariocas, no máximo dos baianos.

O colunista de Época, antes de dar vazão ao seu preconceituoso desconhecimento, deveria visitar o DF e conhecer o que a capital oferece aos apreciadores do samba. As rodas rolam de segunda a segunda. De graça ou com ingresso pago. Nas favelas e nos condomínios.

É verdade que o brasiliense demorou um pouco a compartilhar esse privilégio com o restante do Brasil. Mas, nos últimos tempos, os nascidos em berços pseudoeruditos da música popular carioca se acostumaram a ouvir e admirar grupos como Menos É mais, Di Propósito, 7naRoda, Filhos de Dona Maria, Samba Urgente. Todos do DF.

O jornalista Lucas Fortes deveria dar ouvidos a músicos como Thiago Viegas, do Aprendendo Percussão, e curtir as belas gravações de Leandro Britto no YouTube.

Foto: Instagram

O Menos É Mais – Lucas Fortes deveria saber disso – é um projeto independente e jovem, com apenas três anos e um longo caminho de sucesso e aprendizados pela frente.

O grupo brasiliense tem a batida do Gustavo Goes, criado no DF mas nascido no berço do samba de Vila Isabel; toca o ritmo do Paulinho, forjado no tradicionalíssimo Boi do Seu Teodoro, de Sobradinho; tem um pé no carimbó, trazido do Amazonas pelo Jorge; é marcado pelo Ramon, da mais tradicional família de músicos da cidade; e apresenta a voz da periferia do Distrito Federal nas cordas vocais do Duzão, nascido na cidade-satélite do Gama.

Portanto, caro Lucas Fortes, o Menos é Mais é 100% brasiliense, mas é, acima de tudo, muito brasileiro. E, assim como aconteceu com o samba, continuará quebrando barreiras.

A reprovação de parte da crítica era o combustível que faltava. Te esperamos, nobre escriba, na próxima roda.

Se você é bom da cabeça e não é doente do pé, vem pra Brasília. Alegria no pagode!

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