Vizinhança indesejada

bsbcapitalPor ,26/09/2015 às 16:03, Atualizado em 26/09/2015 às 16:03

Transferência de Invasores do Movimento de Resistência Popular (MRP) para o antigo clube Primavera revolta comunidade de Taguatinga Há mais de dois meses, estão morando em Brasília cerca de 300 integrantes do Movimento de Resistência Popular (MRP), que luta para voltar a receber auxílio-aluguel de R$ 600 do governo. O primeiro endereço do grupo foi …

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Primavera (12)

Transferência de Invasores do Movimento de Resistência Popular (MRP) para o antigo clube Primavera revolta comunidade de Taguatinga

Há mais de dois meses, estão morando em Brasília cerca de 300 integrantes do Movimento de Resistência Popular (MRP), que luta para voltar a receber auxílio-aluguel de R$ 600 do governo. O primeiro endereço do grupo foi em uma área no Setor Bancário Norte. Ali, os militantes montaram acampamento e ficaram por cerca de dois meses. A invasão foi retirada do local no sábado (12) e o grupo seguiu para o Conic, onde ficou por mais 24h até ser removido e invadir o hotel Saint Peter, no Setor Hoteleiro Sul, por volta das 2h de segunda-feira (14). No domingo (20), o Governo de Brasília negociou com o MRP a desocupação do hotel, oferecendo como alternativa a área do antigo Clube Primavera, na QSC 17, em Taguatinga Sul, onde permanecerão até que um novo local seja destinado.

Foi mais ou menos como esconder o lixo debaixo do tapete. Tiraram do centro do Plano Piloto um punhado de gente deserdada pela sorte e levaram para uma cidade-satélite. O cartão postal de Brasília foi preservado, mas à custa do sossego de uma pacata comunidade nas ruas vizinhas ao antigo Primavera. Porém, como na Física, toda ação corresponde a uma reação. E os moradores da QSC 17 e adjacências não estão dispostos a aceitar a decisão do GDF. Ganharam, inclusive, o apoio de entidades representativas de outros segmentos da comunidade taguatinguense, como o Movimento Taguatinga Unida (Movitu), da Associação Comercial (Acit) e até do Conselho Regional de Saúde da cidade, que aprovou, na quarta-feira, uma moção de repúdio “à ação criminosa do Governo em assentar o pessoal do MRP no clube Primavera”. O documento foi encaminhado oficialmente às autoridades federais, distritais e do Ministério Público.

Primavera (7)A advogada Karoline Romero tomou a frente da causa. Ela faz parte da terceira geração de moradores da QSC 17, onde sua avó criou os filhos e onde sua mãe, Marcilene mora até hoje. Karoline acompanhou o vizinho Lúcio Oliveira Costa a uma reunião com o administrador da cidade, Ricardo Lustosa, a Novacap, o Ministério Público e o comando do 2º Batalhão de Polícia Militar. Lúcio é proprietário da casa vizinha ao muro do antigo clube. Ele conta que os integrantes  do MRP tentaram invadir sua residência e ameaçaram incendiar o imóvel já na primeira madrugada após a chegada, de segunda-feira (21) para terça (22). “Eles subiram no muro com lanternas e ficaram gritando. Chamei os vizinhos da rua e a Polícia para proteger minha mulher e meus filhos de três e cinco anos”.

Desde que os invasores chegaram a Taguatinga, a rotina dos moradores mudou. Tumulto, confusão, ameaça e até tiros foram ouvidos, segundo a comunidade. Lúcio e outros 80 moradores fizeram uma manifestação na quarta-feira (23) pedindo a desocupação imediata da área. A advogada Karoline Romero afirmou que o Ministério Público já está a par da situação. “Durante a reunião com o administrador Ricardo Lustosa e os demais órgãos, pedimos que adotem medidas de segurança preventiva. E ficou comprovado que esta é uma Área de Proteção Permanente (APP) e não está apta a abrigar pessoas”, afirmou.

Mesmo assim, a Novacap continua enviando máquinas para limpar o terreno para os invasores. Elas só não entraram na área devido à resistência dos moradores da QSC 17, que bloquearam a rua. Eles criaram grupos em redes sociais e nos celulares. A qualquer movimento suspeito, o alerta é emitido e todos saem de suas casas para ajudar. “Não aceitaremos esta imposição absurda do governo. Queremos nosso sossego de volta. É um direito nosso”, diz a advogada.

 

 Invadir é bom negócio

No fundo, é um bom negócio ser invasor no Brasil. O MRV, por exemplo, teve um hotel no centro de Brasília ao seu dispor por sete dias – sem pagar nada pelas diárias, que, custariam, em média, R$ 330 por apartamento, caso o estabelecimento ainda estivesse em funcionamento. Na saída, levaram utensílios e equipamentos avaliados em R$ 7 milhões e tiveram direito a caminhão de mudança do GDF e escolta da Polícia Militar. Foram transferidos para uma Área de Proteção Permanente (APP), em Taguatinga, onde funcionava o antigo Clube Primavera (QSC 17). Na nova casa, a CEB já ligou a luz, a Caesb a água. E já rolou até festa. O luxuoso Land Rover continua levando insumos e parte do grupo passa o tempo pescando no córrego Taguatinga, que passa nos fundos do terreno.  Alguns deles admitem que estão comendo os peixes que habitam a velha piscina desativada, que foram colocados ali para evitar a proliferação do mosquito da dengue, pois se alimentam dos ovos dos insetos.

A Secretaria de Relações Institucionais e Movimentos Sociais do Governo de Brasília garantiu que a transferência seria temporária e que o GDF ainda estudava a concessão de um terreno definitivo para o grupo. Lotes em Ceilândia e Samambaia chegaram a ser analisados pelo governo. “A decisão judicial determinava a reintegração de posse do hotel e tinha que ser cumprida, senão a gente teria que pagar multa. Em todas as reuniões com o MRP a gente deixou claro que invasão não resolve política habitacional. Agora, esperamos que eles fiquem no clube até a gente encontrar uma solução”, afirmou o secretário da pasta, Marcos Dantas.

 

Uma rua de história 

Foto Getúlio Romão (1)A advogada Karoline Romeiro faz parte da terceira geração da QSC 17. Sua mãe, Marcilene Romero também foi criada na mesma rua. Marcilene conta que era muito diferente o movimento dos frequentadores do clube e o dos invasores. “Era ótimo ter um clube na porta de casa. As festas nunca incomodaram como estes invasores. Quando faziam os bailes no clube, nós alugávamos a frente das casas para barraquinhas e para as pessoas estacionar os carros. É uma ótima lembrança. Ver o clube tomado por este tipo de gente que não sabemos a índole é muito triste”, disse ela.

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