Tácido Rodrigues (*)
“Ô Abre alas que eu quero passar!”. O projeto passou. O povo dançou. No camorote só marajá ficou. Em tempo recorde – cerca de três horas entre uma sessão e outra –, a bateria do Congresso Nacional fez a avenida tremer: Câmara e Senado desfilaram juntos no enredo da vantagem própria. Afinados como nunca, derrubaram o teto constitucional, que virou alegoria descartável.
Os porta-estandartes Hugo Motta e Davi Alcolumbre puxaram o samba: “É hoje o dia da alegria… dos servidores do topo!”. Logo atrás, PT e PL sambaram de mãos dadas. Quando o refrão é aumento para os nossos, a polarização vira harmonia. Erika Kokay (PT), em dueto com o relator Alberto Fraga (PL), pediu bis. Ou melhor, mais benefícios. Mas o mestre-sala avisou que já estava bom demais.
O coro ecoou alto: “Lá vou eu… Me levo pelo mar da ambição (ambição)”, após a aprovação dos supersalários que podem passar de R$ 77 mil, furando o teto do funcionalismo público de R$ 46,3 mil, ao custo de R$ 4,3 bilhões por ano, o equivalente a um ano de Bolsa Família para 500 mil famílias. Mas, na Avenida Legislativa, vale o brilho da fantasia. Que se dane o buraco na arquibancada.
Na ala da resistência, a Federação Psol/Rede e o Partido Novo tentaram mudar o ritmo. Mas foram abafados pela bateria oficial. Alguns foliões resolveram atravessar o desfile a pé: Bruno Lima (PP-SP), Nikolas Ferreira (PL-MG), Tábata Amaral (PSB-SP), Adriana Ventura (Novo-SP), Heloísa Helena (Rede-SP), Chico Alencar (Psol-RJ), Kim Kataguiri (União-SP), Túlio Gadêlha (Rede-SP) e Pedro Paulo (PSD-RJ), vozes isoladas no meio da marchinha do privilégio. No Senado, apenas Eduardo Girão (Novo-CE) e Magno Malta (PL-ES) entoaram um canto de revolta pelos ares.
E quando a apuração terminou, o resultado foi unânime no Sambódromo do Poder: nota 10 para a própria folha de pagamento, nota zero para a sensibilidade social. E viva o Colégio de Líderes! Às favas a galera da pipoca. A “Unidos do Fura-Teto” foi campeã com louvor. Caneca cheia, chope gelado, bolsos transbordando. Na dispersão, o povo, sem confete, sem serpentina e salários mirrados, carrega na cabeça o cofre furado. E no colo, mais uma vez, as contas a pagar.
Além de Erika e Fraga, nenhum dos outros seis foliões credenciados pela população do DF para a Câmara, nenhum se manifestou. O silêncio deles falou mais alto… Os três do Senado entraram mudo e saíram calados. Resta saber que nota o júri dará a cada um deles no desfile de 4 de outubro…
(*) Colaborou Orlando Pontes