Uma simples canção

mmPor ,27/07/2013 às 8:08, Atualizado em 27/07/2013 às 8:08

O meu problema era dormir, mas o dela era bater um papinho comigo. Quer dizer: não havia possibilidade de qualquer tipo de acordo. Estava caracterizado, naquele precioso instante, o crime de lesa-sono, com a agravante de que a vítima já estava com incontáveis horas de cochilos atrasados. Se houvesse um corpo de sete jurados com …

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O meu problema era dormir, mas o dela era bater um papinho comigo. Quer dizer: não havia possibilidade de qualquer tipo de acordo. Estava caracterizado, naquele precioso instante, o crime de lesa-sono, com a agravante de que a vítima já estava com incontáveis horas de cochilos atrasados. Se houvesse um corpo de sete jurados com seus componentes tresnoitados, mesmo assim o réu, digo, a ré, seria com certeza absolvida por unanimidade por mil motivos absolutamente essenciais.

Primeiro porque a referida tem pouco mais de sete anos de idade cronológica, não obstante entender de computador, de internets, de e-mails e etecétera dez vezes mais do que eu. Afinal, não é culpada de terem me ensinado a contar só até os 10 dedos de minha mão. Além do que, ela é linda e tem a cabeça ornamentada por um cabelo liso e fino como seda chinesa; segundo porque tem dois olhos negros enormes, profundamente negros e amendoados como uma charmosa eurasiana; terceiro porque tem um rostinho gorducho, meio anjo e meio peralta; e quarto porque ela só queria bater um papinho com o vovô dorminhoco.

– Olha, tu quer ouvir uma musiquinha legal que aprendi com minha professora de piano? É uma musiquinha muito bonita. Tu vai ver!

Não, eu não queria ver e nem ouvir coisa nenhuma. Além disso, como já tinha frisado, o meu sono estava com várias promissórias no protesto, depois de uma longa temporada num hospital por causa de uma ziquizira que minha netinha não sabia e nem poderia saber. Minha resposta foi dar um urro com a intenção de dizer “não!”, mas os meus lábios me traíram pronunciando: – “Claro que sim, meu amor!”

            Ela simplesmente respondeu:

– “Então ouve, tá?”

Aí então, a menina de olhos negros enormes movimentou as coradas bochechinhas e começou a cantar uma cançãozinha celestial, num autêntico dialeto de anjo, uma canção que acariciava e semeava no meu coração uma doce paz vinda não sei de onde. E como se toda essa felicidade não fosse o suficiente, ainda ganhei de lambuja um gostoso beijo molhado de carinho, final daquela inesquecível canção de amor.

PS – Se alguém imagina que só existe anjo no Céu, está redondamente enganado. Com certeza, há também muitos deles, disfarçados de crianças, aqui bem perto de nós.

           

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