Tácido Rodrigues
Fruto da escola pública, negra e primeira da família a chegar à universidade, a professora Suélia de Siqueira Rodrigues Fleury Rosa transformou a própria trajetória em combustível para pesquisa. À frente do projeto RAPHA, tecnologia que combina membrana de látex tratada e luz de LED para acelerar a cicatrização de feridas do pé diabético, a cientista da Universidade de Brasília (UnB) garante que o objetivo é levar a inovação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
“A gente quer evitar amputações e devolver qualidade de vida às pessoas”, diz. Segundo a pesquisadora, o Hospital Universitário de Brasília (HUB) será o primeiro a receber o produto, ainda no primeiro semestre deste ano. Na semana do Dia Internacional da Mulher, Suélia relata, ainda, a trajetória pessoal e acadêmica marcada por racismo e machismo, e defende mais mulheres na ciência. “Eu não chutei a escada, eu puxo quem vem depois. A ciência precisa ser mais diversa”.
Quem é Suélia Fleury Rosa e como começou sua trajetória acadêmica? — Sou Suélia de Siqueira Rodrigues Fleury Rosa, tenho 48 anos, nasci em Goiânia e estudei a vida inteira em escola pública. Faço muita questão de destacar isso porque sou filha da escola pública. Meus pais não tiveram formação superior — meu pai era iletrado — e, ainda assim, a educação transformou a minha vida. Sempre gostei de estudar, mas só entendi que a universidade era possível quando assisti a uma palestra no ensino médio explicando que existiam bolsas, moradia e alimentação para estudantes.
Quando surgiu a decisão de seguir a carreira científica? — Muito cedo. Ainda na graduação. Entrei na Engenharia Elétrica da Unesp e, poucos meses depois, conquistei bolsa de iniciação científica e bolsa de assistência estudantil. Foi a primeira vez que ganhei dinheiro com estudo. Ali eu percebi que poderia viver da pesquisa. Eu não vim de berço de ouro. Então, depender de políticas públicas foi fundamental para minha permanência.
A área da saúde sempre esteve no seu horizonte? — Sempre. Meu sonho inicial era Medicina. Mas, por falta de informação e condição financeira, acabei migrando para a Engenharia. Mesmo assim, mantive o foco na saúde. Essa ponte me levou à Engenharia Biomédica e depois ao doutorado que originou o RAPHA. Nada foi por acaso.
O que é exatamente o RAPHA? — O RAPHA começou como um projeto de pesquisa e hoje é um produto em fase final regulatória. Ele usa uma membrana de látex biocompatível associada a um equipamento de LED vermelho para estimular a cicatrização de feridas, principalmente do pé diabético. A ideia central é permitir tratamento domiciliar, simples e de baixo custo.
Foto: Arquivo Pessoal
Por que mirar especificamente o pé diabético? — Porque uma ferida pequena pode evoluir para amputação. Quando isso acontece, não é só o paciente que sofre. A família toda é impactada. Há perda de autonomia, depressão e custo alto para o sistema de saúde. O RAPHA nasce para interromper esse ciclo. Eu vi casos próximos e isso me mobilizou profundamente.
Como funciona o uso do equipamento pelo paciente? — O protocolo foi pensado para qualquer pessoa conseguir usar. O paciente limpa a ferida com soro em temperatura ambiente, aplica a lâmina de látex esterilizada e posiciona o equipamento de LED por 35 minutos. O aparelho desliga sozinho. Depois ele remove o equipamento, faz o curativo e repete o processo diariamente. É algo que pode ser feito em casa, até assistindo televisão.
Em que estágio está a tecnologia hoje? — Nós concluímos a pesquisa translacional completa: ensaios, patente, transferência tecnológica e treinamento da indústria. A empresa parceira finaliza as exigências regulatórias. A expectativa é a aprovação ocorrer em breve, ainda neste primeiro semestre. O HUB será o primeiro hospital a receber os kits por doação inicial.
O caminho até o mercado foi difícil? — Muito. O pesquisador precisa dialogar com indústria, regulação e financiamento. São linguagens diferentes. Muitas vezes é desgastante, mas necessário. Se a gente quer que a ciência saia do papel, precisa atravessar esse vale entre laboratório e sociedade.
A senhora costuma falar sobre machismo na Engenharia. Ainda é uma realidade? — É sim. Especialmente quando a mulher tenta ocupar espaços de poder. Enquanto você está produzindo, tudo bem. Quando disputa liderança, surgem resistências. Já ouvi comentários inaceitáveis em processos internos. Isso mostra que precisamos avançar muito.
E o recorte racial também pesa? — Sem dúvida. Sou uma mulher negra na Engenharia. O preconceito existe e aparece de formas sutis e explícitas. Por isso faço questão de puxar outras meninas. Eu não chutei a escada; eu puxo quem vem depois. A ciência precisa ser mais diversa.
Qual a importância de ver mais pesquisadoras ganhando visibilidade? — É fundamental. Nós temos um compromisso muito forte com o impacto social da ciência. O olhar feminino traz outras perguntas e outras soluções. Mas precisamos transformar visibilidade em política pública, em dados e em ocupação real de espaços.
O objetivo final é levar o RAPHA ao SUS?
Sem dúvida. Depois da aprovação regulatória, vamos entrar com o pedido de incorporação pela Conitec. O projeto recebeu financiamento público. Então faz todo sentido devolver essa tecnologia para a população. Ciência financiada com recurso público precisa gerar benefício público.
Que recado deixa para jovens que sonham com a carreira científica? — Não deixem ninguém dizer que vocês não podem. Eu recebi muitos “nãos” e transformei cada um em combustível. A ciência não é para poucos escolhidos, é para quem persiste. Se você tem curiosidade, disciplina e propósito, você consegue chegar. E, quando chegar, puxe o próximo, não chute a escada.