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Cidades, Especial

Um amor que não bate ponto, nem encerra expediente

Quatro mulheres do DF abrem o coração sobre a maternidade

  • Tácido Rodrigues
  • 08/05/2026
  • 00:12

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Fotos: Arquivo pessoal

Tácido Rodrigues

O despertador toca antes do sol nascer. Tem uniforme para separar, café para fazer, criança para acordar, almoço para preparar, boletos para pagar e uma rotina inteira para cumprir antes mesmo de o resto do mundo entrar no ar. No Distrito Federal, quatro mães com trajetórias completamente diferentes compartilham algo em comum: a certeza de que a maternidade nunca entra em folga.

No calendário, o Dia das Mães ocupa apenas um domingo no mês de maio. Na prática, porém, o amor materno funciona em escala 7×0. Entre jornadas duplas, culpa silenciosa, noites mal dormidas e a tentativa diária de não desaparecer dentro das próprias responsabilidades, Rosilene Alves, Danielle Matos, Lia Coriolano e Myrcia Hessen contam como a maternidade transformou suas vidas — e como cada uma delas tenta sobreviver, à própria maneira, ao peso invisível de cuidar de tudo.

Correria

Aos 55 anos, Rosilene Alves da Silva já se acostumou a viver correndo. Moradora de Taguatinga, ela divide os dias entre o trabalho em um ateliê e as costuras que faz em casa para completar a renda. A rotina começa cedo e termina tarde. Mesmo assim, fala da maternidade com serenidade: “É a coisa mais importante da minha vida. Não tenho nada a reclamar. Sou muito feliz, mesmo com a rotina intensa”.

Mãe da estudante de enfermagem Ester Alves, de 22 anos, Rosilene diz que o tempo sempre foi o principal luxo que lhe faltou. “Já perdi a apresentação da escola da minha filha porque tive que trabalhar. Fico triste porque sempre queremos participar da vida de quem a gente ama”. Ela acorda às 6h e trabalha o dia todo. Mas as obrigações não acabam quando chega em casa. “Saio de um trabalho para outro e ainda tem casa e filho pra cuidar. Mas a gente se vira”.

Rosilene e a filha Ester: “Saio de um trabalho para outro e ainda tem casa e filho pra cuidar”

Rosilene defende o fim da escala 6×1, proposta em discussão no Congresso Nacional que pode tornar o sábado e o domingo em dias de descanso, embora a mudança tenda a alterar muito pouco sua realidade. Como autônoma, ela nunca teve direito a descanso remunerado. “Na minha vida, não alteraria muita coisa, porque não sou CLT. Mas vai impactar na vida de outras pessoas”.

A rotina agitada também deixa marcas pessoais. “Sinto falta de ter mais tempo com a família em datas especiais, como aniversários, porque estou trabalhando”. Mas ela fala sem amargura. Mães como Rosilene aprendem a incorporar exaustão à rotina e a transformar o cansaço em força para seguir em frente.

Culpa e orgulho

Se Rosilene representa uma geração acostumada a suportar tudo em silêncio, Danielle Matos, 32 anos, vive uma maternidade marcada pela tentativa constante de equilibrar presença e produtividade. Arquiteta e dona da própria empresa, a MAEDU Arquitetura e Interiores, ela divide o dia entre reuniões, obras, clientes, conteúdos para redes sociais e os cuidados com o pequeno Eduardo, o Dudu, de 1 ano e 10 meses.

“Ser mãe, dentro dessa rotina intensa, é viver um equilíbrio constante entre culpa e orgulho. Culpa por sentir que eu poderia estar mais presente em alguns momentos da vida dele. E orgulho por estar construindo uma família melhor para ele com o meu trabalho”.

Danielle, ao lado do filho Eduardo: “Ser mãe é equilíbrio constante entre culpa e orgulho”

A rotina é cronometrada. Danielle acorda às 6h30, arruma o filho para a escola, tenta encaixar treino físico, trabalho, administração da empresa e vida doméstica antes de buscá-lo no fim da tarde. À noite, dedica o tempo à família. Quando o menino dorme, o expediente recomeça. “Os momentos em que mais sinto falta de tempo é nos detalhes, como sentar sem pressa para brincar e ler histórias antes de dormir. Ou simplesmente desacelerar”.

Para ela, o apoio do marido é essencial. Mas isso não elimina o desgaste emocional. “Tem dias que a gente sente que deu conta de tudo, tem dias que não”. Danielle acredita que a sociedade romantiza a figura da mulher que “dá conta de tudo”. Para ela, o verdadeiro apoio às mães começa quando a maternidade deixa de ser vista como um problema profissional. 

“Ter horários mais flexíveis, ambientes de trabalho mais humanos, creches acessíveis e acolhimento verdadeiro faz muita diferença. Nenhuma mãe deveria precisar se sobrecarregar tanto para equilibrar trabalho e família”.

Entrega

Lia Coriolano, 36 anos, encara a maternidade como uma reinvenção diária. Instrutora de yoga, empreendedora e mãe solo de Noah, de 3 anos, ela descreve o maternar como uma travessia. “A primeira palavra que vem à minha cabeça quando se trata da maternidade é entrega”. Desde o nascimento do filho, Lia precisou reorganizar a vida. Ela mora sozinha com Noah desde que ele nasceu e construiu uma rotina baseada em disciplina e ajuda feminina.

“Eu tenho vivenciado na maternidade solo e no empreendedorismo feminino que, geralmente, as ajudas são de mulheres mães”. O dia começa às 6h20. Ela organiza o filho para a creche e segue para as aulas de yoga. Entre treinos, atendimentos e compromissos profissionais, tenta preservar algo que considera inegociável: qualidade de vida. “Minha profissão é dar qualidade de vida para as pessoas. Então, não aceito não ter qualidade de vida na minha vida”.

Lia, com o filho Noah: “Na maternidade solo, as ajudas são de mulheres mães”

Lia criou a marca “Viver Bem Até os Cem”, inspirada em sua mãe, hoje com 76 anos. Foi essa figura materna, forte e acolhedora, que lhe ensinou a ir atrás dos sonhos sem medo. “Ela nunca julgou nenhuma das escolhas que eu fiz. Hoje, as pessoas que eu tive medo de decepcionar são as que mais se orgulham de mim”, relata, emocionada.

Talhada no autocontrole aprendido no esporte e no yoga, Lia tenta manter vivo o sonho de empreender – nem sempre sem culpa, nem sempre sem chorar. E esse é o conselho mais valioso que oferece a outras mães: “Vai ter momentos que vai parecer que não faz sentido aquilo. Mas a própria vida, quando você busca, vai te dando o caminho”.

Dois mundos

Para a jornalista Myrcia Hessen, 37 anos, o amor materno ganhou contornos complexos. Mãe de Thomas, de 9 anos, diagnosticado com autismo, e de Alice, de 4, ela vive diariamente o contraste entre duas maternidades completamente diferentes. “Com a Alice é mais fácil. Com o Thomas, é tudo muito intenso”.

A rotina chegou ao limite no ano passado. Depois de anos conciliando redação, terapias, escola, crises e tarefas domésticas, Myrcia desenvolveu a Síndrome de Burnout (distúrbio emocional crônico resultante de estresse intenso no trabalho). Precisou pedir demissão do emprego e passar meses cuidando da própria saúde mental. “Não aguentei”, admite.

Myrcia, com o marido e os filhos Alice e Thomas: “A gente precisa continuar porque não tem opção”

Ela descreve a maternidade atípica como uma experiência atravessada pela imprevisibilidade. Não são apenas birras ou dificuldades escolares. São crises intensas, julgamentos públicos e uma exaustão constante. “Os problemas da mãe atípica giram em torno de coisas inesperadas. De uma criança se jogando no chão, se debatendo, de pessoas ao redor te olhando e te julgando”.

O maior desafio continua sendo a escola. Thomas já passou por diferentes instituições sem conseguir estabilidade. Em uma delas, sequer participou de apresentações escolares por falta de adaptação sensorial. “Ele ficou um ano e meio sem participar de nenhuma apresentação porque tudo tinha muito barulho, muita música alta”.

Mesmo nas melhores experiências, as dificuldades persistem. “Escola, de fato, é muito difícil. Eles não têm noção do mínimo que o autista precisa para conseguir conviver em sala de aula”, lamenta Myrcia, que, apesar do esgotamento, reconhece que ainda vive uma realidade privilegiada. Tem o apoio do marido e da família, algo raro, segundo ela. “A grande maioria das mães atípicas sofre abandono parental”.

Hoje, trabalhando em home office, ela tenta reconstruir a vida em um ritmo mais humano. E deixa uma mensagem para outras mães que vivem a mesma realidade: “Tente. Se arrisque. Faça planos para que o seu dia a dia fique mais leve. A gente precisa continuar porque não tem opção”.

As histórias dessas quatro mães se cruzam no mesmo ponto: no esforço invisível de mulheres que sustentam famílias inteiras enquanto tentam não se perder de si mesmas. Nenhuma delas fala sobre perfeição. Mas todas admitem sentir cansaço, ausência, culpa, medo, orgulho, renúncia, sobrevivência e amor. Um amor que não bate ponto. Nem encerra expediente.

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