Caroline Romeiro (*)
Durante muito tempo, falar sobre alimentação inadequada significava apontar excessos de açúcar, gordura ou sal. Hoje, a ciência amplia esse debate e mostra que o problema é ainda mais profundo: muitos produtos alimentícios são concebidos para estimular consumo contínuo, reduzir a percepção de saciedade e ocupar cada vez mais espaço no cotidiano das pessoas.
Um artigo recente publicado na revista científica The Milbank Quarterly chama atenção justamente para isso ao comparar a lógica industrial dos alimentos ultraprocessados à historicamente utilizada pela indústria do tabaco. A análise revela que, assim como ocorreu com os cigarros, há um refinamento técnico intencional para tornar esses produtos extremamente atrativos e difíceis de recusar.
Os pesquisadores descrevem que açúcar, gordura e sal não aparecem nesses produtos de forma aleatória. Há combinação precisa de ingredientes, textura, aroma, crocância e velocidade de absorção pelo organismo para gerar resposta rápida de prazer e desejo de repetição.
Não por acaso, biscoitos recheados, refrigerantes, salgadinhos, embutidos e refeições prontas ultrapassam a lógica da fome e passam a disputar espaço com o próprio comportamento alimentar.
Comer deixa de ser apenas resposta a uma necessidade fisiológica e passa a ser influenciado por estímulos cuidadosamente planejados pela engenharia industrial, o que ajuda a explicar por que doenças crônicas evitáveis seguem avançando em ritmo tão acelerado no mundo.
No Brasil, esse entendimento dialoga diretamente com o Guia Alimentar para a População Brasileira, referência internacional ao defender que a base da alimentação deve ser formada por alimentos in natura e minimamente processados, reservando os ultraprocessados para situações ocasionais — e, sempre que possível, evitando sua presença cotidiana.
O Guia foi pioneiro ao mostrar que o impacto desses produtos vai além da composição nutricional: eles alteram hábitos, substituem preparações tradicionais, enfraquecem a cultura alimentar e contribuem para ambientes em que comer passa a ser cada vez mais automático, rápido e desconectado do ato de cuidar da saúde.
Por isso, falar de alimentação saudável hoje exige mais do que olhar calorias ou promessas estampadas nas embalagens. Exige compreender que escolhas alimentares são fortemente influenciadas pelo ambiente, pela publicidade e pela forma como os produtos chegam até nós.
Em tempos de excesso de informação e de discursos simplificados nas redes sociais, valorizar a orientação baseada em evidências científicas e o trabalho do nutricionista torna-se ainda mais necessário.
Afinal, promover saúde também significa aprender a reconhecer quando o alimento foi pensado para nutrir — e quando foi desenhado apenas para vender.
(*) Mestre em Nutrição Humana, coordenadora Técnica do Conselho Federal de Nutrição e docente do Curso de Nutrição da Universidade Católica de Brasília