O porre de Gallotti

bsbcapitalPor ,12/02/2016 às 21:14, Atualizado em 09/07/2016 às 3:37

Sebastião Nery   Rio – Era meia noite de um fim de semana de 1979.  O restaurante Antonio`s, varanda lírica da República do Leblon, no Rio de Janeiro, começava seu fim de noite. Nas mesas, os profissionais da madrugada penduravam esperanças e desencantos nas beiras dos copos. Um conversar silencioso e humilde, como do feitio …

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Sebastião Nery

 

Rio – Era meia noite de um fim de semana de 1979.  O restaurante Antonio`s, varanda lírica da República do Leblon, no Rio de Janeiro, começava seu fim de noite. Nas mesas, os profissionais da madrugada penduravam esperanças e desencantos nas beiras dos copos.

Um conversar silencioso e humilde, como do feitio dos calejados. Cada grupo em sua mesa, como monges de uma missa noturna. De repente, o tufão. A porta se abre forte e aparece, cabelos brancos displicentemente penteados, rosto queimado de sol, terno azul sem gravata, Antonio Gallotti.

Foi como se Napoleão entrasse em um bistrô de Paris, mal chegando da conquista do Egito. O restaurante explodiu numa salva de palmas, calorosa, continuada, visivelmente sarcástica. Alguém gritou:

– Apaguem-se as luzes! Não precisa mais! A luz chegou!

Tarso de Castro comandou:

– Ótimo. Todas as contas pagas!

Paulo Casé, desconsolado:

– Que pena! Eu tinha acabado de pagar a conta.

Gallotti faz um gesto amplo com a mão direita, cumprimenta-nos a todos e senta-se à mesa de Miguel Lins, Mauro Salles e Otto Lara Rezende. Estava visivelmente excitado, como quem tivesse ganho na Loteria1.

Tirei um pequeno bloco do bolso, a caneta, e, discretamente, atrás da garrafa de vinho, fui anotando tudo que ouvia. Otto Lara e Mauro Salles falavam baixo. Miguel Lins, sorvendo seu charuto, celestialmente, quase em transe, mal falava. Só Gallotti, com sua voz anasalada, seu sotaque de tenor italiano,“allegro, allegríssimo”, falava.Alguém pergunta:

– Como é que foi?

– No dia 12 de julho, mergulhei. Quando voltei à tona, o negócio estava garantido. Aí, viajei. Não fui morto pelos acionistas de lá porque fugi. Cheguei aqui, todo mundo contra mim.

Alguém interrompe:

– Volta, Gallotti!

– Não ganhei nada na transação. Não ganhei zero da Light. Tive só 39 da Brascan (Imaginei 39 milhões de dólares – SN).Gosto de ganhar dinheiro. Quero ganhar dinheiro. Mas, sobretudo, quero morar na glória dos amigos. Às vezes, fico pensando e na minha insensatez me digo:

– Que besteira que eu fiz! Melhor, só para os acionistas da Light.

E dá uma gargalhada nervosa, estrepitosa, delirante, quase histérica.

(E foi assim que o Brasil,“comprou” de novo a Light já nossa).

 

O choro

Gallotti para, cala, baixa os olhos, como se estivesse triste. Alguém levanta um brinde “à vitória do negócio”.E ele atrás dos óculos de aro preto:

– Agora, vou dizer uma coisa a vocês. A vitória não foi só minha. Tive companheiros dedicados, tive juristas, tive muita gente importante ao meu lado. Mas que foi bonito, foi. Foi ou não foi bonito? Foi maravilhoso! Eu estou emocionado! Eu estou chorando! Tô chorando! Me dá um lenço que eu vou chorar! Me dá teu lenço, Mauro, para eu enxugar minhas lágrimas! Eu chorei! Como no samba, eu chorei!

E as lágrimas lhe rolaram rosto abaixo, indisfarçadas. A mesa ficou tensa, calada. Gallotti, quase soluçando, tenta consertar a emoção.

Rubem Braga levanta-se, dá um abraço em Otto e lhe diz ao ouvido:

– O Sebastião Nery está anotando tudo aí atrás.

Otto olha para trás, me vê, passa as mãos pela cabeça branca, e suspira. Miguel Lins sente alguma coisa no ar, diz a Gallotti:

– Fale baixo, estão ouvindo sua conversa.

Chico Buarque levanta-se, vai saindo, Miguel Lins chama-o:

– Antônio, você conhece o Chico?

– Muito prazer, meu filho. Você ainda é muito mais charmoso pessoalmente do que nas fotos.

Chico sorri seu sorriso discreto, Gallotti insiste:

– Você sabe quem eu sou?

– Sei sim. O senhor não é o homem da história mal contada?

E saí. A mesa fica gelada. Rubem Braga vai saindo também, seu passo manso, o olhar sábio de caçador de instantes.

– Rubem, um abraço.

– Um abraço.  Saibam vocês que, haja o que houver, estou neutro.

E saí. Uma mesa começa a cantar com a música do Flamengo:

– “Gallotti, Gallotti, tua glória é lucrar!

Gallotti, Gallotti, campeão de faturar!”

Ele fala com Norma Benguel. Ela ironiza:

– O senhor é português? Tem um sotaque multinacional.

Ele volta para meu lado:

– Nery, você sabe quem eu sou?

– Claro, doutor Gallotti.O senhor é a luz que ilumina o triste fim do governo Geisel.

– Não é nada disso, Nery. Leio você todos os dias, na TRIBUNA, conheço seus livros, vejo você todos os dias na TV Bandeirantes. Não sei se gosto mais de seu estilo, de seu talento ou de seu patriotismo. Mas confesso que às vezes me assusto com sua maledicência.

(Essa é a diferença entre a ditadura e a democracia. Depois da negociata Gallotti foi para o bar. Os empreiteiros vão para a cadeia).

www.sebastiaonery.com  nerysebastiao@gmail.com


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