Se precisa de hospital de campanha, por que flexibilizar o uso de máscaras?

BSB Capital 03/11/2021 às 10:02, Atualizado em 03/11/2021 às 10:02

O que a população deve entender e como deve agir diante das medidas antagônicas?

hospital de campanha
Hospital de Campanha do Gama. Foto: Reprodução

Esta semana eu pretendia falar sobre o futuro, na perspectiva de que a vida tende a melhorar com o arrefecimento da pandemia da covid-19 e as esperanças para 2022 (ano eleitoral sempre nos traz a possibilidade de avançar na construção de uma condição de vida melhor). Mas, fatos ocorridos nos últimos dias merecem considerações, enquanto o prato está quente sobre a mesa. E vamos voltar a falar do enfrentamento à pandemia no Distrito Federal

Mensagens conflitantes estão sendo transmitidas à população. Num momento o governador anuncia o fim do uso de máscaras sanitárias a partir de 3 de novembro e a retomada das aulas 100% presenciais na rede pública de ensino. Dias depois, é anunciado que o Tribunal de Contas do DF autorizou a recontratação da Associação Saúde em Movimento (ASM) para gerir 160 leitos para atendimento a pacientes da covid-19, sob a alegação de uma possível terceira onda da doença.

O que a população deve entender e como deve agir diante das medidas antagônicas? Se existe a preocupação com um eventual aumento dos casos de transmissão e hospitalização, uma terceira onda da covid-19, por que as medidas sanitárias de contenção estão sendo flexibilizadas?

Também chama a atenção o fato de o TCDF ter divulgado, três dias antes da liberação da recontratação da ASM (que é parceira do GDF em um projeto público-privado de construção de um parque hospitalar no Guará), que essa empresa teria recebido indevidamente R$ 34 milhões em um contrato anterior para gestão de leitos covid no Hospital de Campanha da Polícia Militar. Agora, essa mesma empresa assume um novo contrato com valor estimado em mais de R$ 200 milhões.

Justificativa

Se a justificativa fosse liberar as unidades da rede pública de saúde, seria algo mais fácil de engolir. Nos hospitais públicos e UPAs, os leitos destinados ao atendimento a pacientes da covid-19 estão sendo desmobilizados, mas as unidades seguem contingenciadas em função da pandemia. Profissionais e espaços nas unidades de saúde continuam indisponíveis para a assistência geral, embora o número de casos de internação por infecção do coronavírus tenha caído drasticamente, graças à ampliação da vacinação.

E essas unidades públicas de saúde ainda sofrem com a insuficiência de profissionais de todas as áreas, falta de insumos e medicamentos diversos, contratos de manutenção capengas e até falta de coisas básicas como álcool a 70% e, pasmem, até de sabão para lavar as mãos, papel toalha e papel higiênico. Como o Sindicato dos Médicos do DF denunciou o caso do Hospital Regional do Gama e se repete no Hospital de Ceilândia, pacientes chegam a morrer dentro dos hospitais por falta do que é básico para o atendimento. Mortes que seriam evitadas com uma gestão adequada da Secretaria de Saúde.

Hospitais de campanha

É importante lembrar que o contrato de gestão dos hospitais de campanha que estava em vigência foi encerrado no último dia 18, sem possibilidade de renovação. E em todo o período de vigência desta contratação, a Secretaria de Saúde não anunciou nenhum plano para viabilizar, caso fosse necessário, a continuidade do funcionamento dos hospitais de campanha.

Com esse cenário, a impressão que fica é a de que os conselheiros do TCDF tiveram que tomar uma decisão como quem está com uma faca na garganta.

CPI da covid-19

A instalação da CPI da covid-19 na Câmara Legislativa não vingou, mas a sequência de fatos que envolve a gestão do enfrentamento à pandemia precisa ser analisada com lupa. Denúncias, investigações, prisões e escândalos envolvendo desde a compra de testes, a falta de equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde, até os contratos de gestão dos hospitais de campanha, mostram, no mínimo, uma série de erros grosseiros de gestão e uma falta de planejamento sem limites.

Torcemos para que não haja uma terceira onda de covid-19 e para que os pontos obscuros da gestão da pandemia sejam esclarecidos. Mas a sociedade espera respostas para as questões que seguem em aberto e se avolumam todos os dias. Queremos, todos nós, que dias melhores cheguem – e logo. Mas as incertezas, os escândalos e a falta de respostas claras embaçam a esperança e minam a boa vontade da população.

(*) Presidente do SindMédico-DF

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasília Capital

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