Tácido Rodrigues
Desde 1979, quando Brasília sequer escolhia seu governador pelo voto direto, a saúde pública já apresentava sintomas de fragilidade estrutural. O prontuário é longo, repleto de tentativas de reorganização, emergências decretadas, escândalos judiciais e investimentos vultosos que não impediram o agravamento do quadro. A cada nova gestão, anuncia-se a cura, mas o sistema nunca saiu da internação em estado crítico.
Um dos primeiros a tentar “medicar” o DF foi o médico Jofran Frejat, então secretário de Saúde no governo Elmo Serejo Farias, nomeado pelo ditador de plantão à época, João Baptista Figueiredo. Piauiense e médico do serviço público, Frejat prescreveu um modelo baseado em cuidados primários, com postos rurais, centros de saúde e especialidades básicas — ginecologia, pediatria, clínica médica e odontologia — para cada 30 mil habitantes. O plano previa hospitais regionais nas cidades-satélites e um hospital de base como referência em alta complexidade.
Frejat transformou essa proposta em bandeira eleitoral e elegeu-se cinco vezes deputado federal, sempre prometendo o fim da superlotação nas unidades de saúde do DF. A centralização da gestão, no entanto, impediu a implementação plena do modelo. Em 2018, apresentou-se como pré-candidato ao Palácio do Buriti pelo extinto PR, mas desistiu por motivos pessoais que nunca vieram a público.
Foto: Divulgação
O médico que virou réu
Em 2010, o médico Agnelo Queiroz (PT) venceu a eleição em meio ao escândalo da Caixa de Pandora, que levara ao afastamento e prisão do ex-governador José Roberto Arruda, com a promessa simbólica de governar de dentro dos prontos-socorros, acumulando os cargo sde governador e secretário de Saúde. A retórica do atendimento direto ao paciente contrastou com a realidade de um sistema em colapso financeiro e administrativo.
Os secretários nomeados por ele – Rafael Barbosa e Elias Miziara – foram presos por superfaturamento na aquisição de órteses e próteses para a rede pública. O próprio Agnelo e a também ex-secretária de Saúde Marília Coelho foram condenados por improbidade administrativa e tiveram que devolver dinheiro aos cofres públicos após ele aumentar o próprio salário de médico da Secretaria de Saúde, em 2014, quando exercia o mandato de governador.
Foto: José Cruz/Agência Brasil
Emergência como política
Em 2015, Rodrigo Rollemberg (PSB) assumiu o governo e logo no primeiro ato decretou situação de emergência na saúde, alegando colapso financeiro herdado da gestão anterior. A medida permitiu compras com dispensa de licitação, convocação de profissionais e reorganização forçada da rede. Mesmo assim, a crise persistiu, com unidades saturadas, filas intermináveis e escassez de médicos. Sobrou até para sindicatos da categoria, acusados de agir contra a população.
Dois anos depois, o governo Rollemberg apresentou como solução a criação do Instituto Hospital de Base de Brasília (IHBB), modelo que serviria de embrião para o atual Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF). A proposta prometia eficiência, autonomia administrativa e racionalização de recursos. Não foi exatamente isto que se verificou ao longo dos anos.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Investimento alto, estado febril
Primeiro governador eleito nascido em Brasília, Ibaneis Rocha (MDB) derrotou Rollemberg em 2018 prometendo extinguir no primeiro dia de sua gestão. Mas, ao assumir o GDF em 2019 apostou na expansão da infraestrutura como terapia de choque.
No primeiro mandato, Ibaneis entregou dez Unidades Básicas de Saúde (UBSs), sete UPAs e dois hospitais modulares em Ceilândia e em Samambaia, além de contratar cerca de 18 mil profissionais, entre efetivos e temporários. Segundo a Secretaria de Saúde, o investimento superou R$ 3 bilhões em quatro anos.
No auge da pandemia, porém, o sistema voltou à UTI política. Em agosto de 2020, o então secretário de Saúde, Francisco Araújo, foi preso na Operação Falso Negativo, acusado de irregularidades na compra de testes para covid-19. A investigação atingiu também ex-secretários-adjuntos, subsecretários, diretores e assessores da pasta.
Foto: Vinícius de Melo/Agência Brasília
No segundo mandato, que se encerra em dezembro de 2026, Ibaneis entregou três UBSs em Santa Maria, Gama e Brazlândia. Outras duas estão em construção, além de 19 em fase de licitação ou documentação técnica. Há seis UPAs em obras e uma em licitação, além de projetos para hospitais no Recanto das Emas, São Sebastião e Guará. O receituário segue robusto no papel, mas o paciente continua febril. O sistema não saiu do coma induzido.