Republic of Bananas

Julio MiragayaPor ,13/11/2020 às 9:00, Atualizado em 13/11/2020 às 0:24

EUA deveriam olhar para o próprio umbigo e ver que o título também cabe ao seu autoproclamado “modelo de democracia para o mundo”

Os norte-americanos, em sua conhecidaarrogância, costumam se referir aos países latino-americanos como República das Bananas. Deveriam olhar para o próprio umbigo e ver que o título caberia também ao seu autoproclamado “modelo de democracia para o mundo”. 

É inacreditável: Biden venceu Trump com diferença que deverá chegar a 5,5 milhões de votos(deverá eleger 306 delegados contra 232), mas se fossem 93 mil votos a menos (10 mil no Arizona, 13mil na Geórgia, 20 mil em Wiscousin e 50 mil na Pensilvânia), Biden perderia 57 delegados, Trump teria 289 a 249 e seria eleito presidente, mesmo com 5,4 milhões de votos a menos. Se isso acontecesse, seria a terceira vez nos últimos seis pleitos.

Sim, República das Bananas, onde quem proclama o vencedor são as redes de TV. Que em 2000 via Al Gore vencendo George Bush Filho por meio milhão de votos e garantindo 266 delegados contra 246 do republicano. Faltava concluir a apertada votação na Flórida, governada por quem? Jeb Bush, irmão de George. A contagem resultou emmeros 537 votos pró Bush (0,004%), e sob fortes indícios de fraude, a Corte da Flórida determinou a recontagem de 100 mil votos. Mas a Suprema Corte, por 5X4, vetou a recontagem e Bush foi proclamado presidente. Mais bananeiro, impossível. 

Pela quinta vez em mais de 200 anos umpresidente em exercício não se reelege nos Estados Unidos. Sem dúvida, uma grande derrota política de Trump. Mas, se ele foi derrotado, a ideologia que expressa, não. Ao contrário, ganhou cerca de 10milhões de adeptos, passando de 62,9 milhões em 2016 para quase 73 milhões em 2020.

A direita norte-americana continua muito forte. Sua base está sobretudo nas áreas rurais e pequenas cidades interioranas. São milhões de racistas, misóginos, homofóbicos e religiosos terraplanistas, que abominam o Estado e pregam o “Estado Mínimo”. É a turma que marcha com a Bíblia numa mão e um fuzil na outra.

Mas a massa de eleitores republicanos compreende também milhões de trabalhadores que, por experiência própria, não têm esperança de uma vida melhor sob governo democrata. 

No outro polo estão milhões de moradores das metrópoles e grandes centros urbanos, mais instruídos e esclarecidos, que repudiam o armamentismo, defendem a saúde e a educação públicas, um sistema tributário progressivo e a valorização do trabalho, que votam em candidatos democratas, mais por repudiarem os republicanos do que por convicção na realização daqueles.   

No topo de ambas as facções está a elite econômica, financeira e industrial, que comanda o chamado complexo industrial-militar, controla o parlamento, o sistema judicial e a grande mídia. Que tem suas diferenças, mas que se unifica quando o assunto é a preservação de um sistema capitalista selvagem, assentado na espoliação e opressão de outros povos, reservando a distribuição das “migalhas” à clientela interna.

E isto não muda, com Biden ou com Trump.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável (UnB), ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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