Quem sai a queimar…

bsbcapitalPor ,19/03/2016 às 23:47, Atualizado em 09/07/2016 às 3:37

Mario Pontes    Aos sábados, alguns lavradores amigos, ou simplesmente conhecidos de meu pai, costumavam parar lá em casa, para um papo antes de se dirigirem à feira da cidadezinha, que se prolongava até o meio da tarde. Seu Tomás era um deles. Um dia, no final do verão, respondeu orgulhoso ao meu velho: – …

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Mario Pontes 

 

Aos sábados, alguns lavradores amigos, ou simplesmente conhecidos de meu pai, costumavam parar lá em casa, para um papo antes de se dirigirem à feira da cidadezinha, que se prolongava até o meio da tarde. Seu Tomás era um deles. Um dia, no final do verão, respondeu orgulhoso ao meu velho:

– Mas é claro!  Terminei, bem antes dos vizinhos. Há quinze dias acabei de derrubar a caatinga que cobria o terreno do meu novo roçado. Esperei por uns dias de sol e ontem, finalmente, botei fogo na galharia. Uma beleza!

Viu meu olhar inquisitivo e logo me perguntou, sem esconder o desprezo pela minha condição de menino: — O que foi?

— Posso lhe fazer uma pergunta, seu Tomás?

— O que um menino do seu tamanho tem pra perguntar?

— O senhor não acaba com sua terra tocando fogo nela todos os anos?

— Ora! Queimar só faz bem. Mas quem é você pra entender coisas de gente grande?

De fato, eu só tinha dez anos, mas… Dei meia-volta, deixei Seu Tomás a rir do meu atrevimento. Fechei a porta atrás de mim e não demorei lá muito a sair ao mundo para viver. E houve algo que depois de alguns anos iria aprender, com a leitura dos discursos que outro Tomás, o lúcido e corajoso Tomás Pompeu, representante do Ceará no Senado do Império, pronunciava na tribuna daquela casa em meados do século XIX.  A destruição da cobertura florestal do país, para permitir uma atrasada e predatória agricultura – ele dizia e repetia — era uma história tão velha quanto a do país. História iniciada no dia em que o primeiro capitão-mor de capitania invadiu a terra da tribo mais próxima, cortou e queimou sua mata, usou-a apenas por um ano e saiu à procura de outra para derrubar, plantar e em seguida abandonar. Sem jamais pensar nas destruições conexas que levava a cabo. Sem pensar que, com sua ação irracional comprometia o futuro da terra, das águas, da variedade de vida, da qual, aliás, não era dono.

Um dia, quando já criara barbas e necessitava de óculos, também me apercebi de que, apesar de suas pretensões civilizatórias, os séculos recentes têm sido tão ou mais ricos de incendiários do que, por exemplo, a sempre invocada Roma de Nero. E que, apesar da sua habitual gritaria de ganhadores do páreo, o sucesso deles não costuma durar mais do que o fugaz período de fertilidade que Seu Tomaz criava cada ano naquela terrinha de Sitio Belo, até acabar com ela e ter de mudar-se para a cidade a fim de disputar o pão com seus mendigos.


Conspiração contra o riso


Frida entre nós


Uma ao lado da outra


 

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