Caroline Romeiro (*)
A palavra suplemento saiu das academias, entrou nos supermercados, ocupou vitrines digitais e passou a fazer parte do vocabulário cotidiano de quem busca saúde, disposição ou emagrecimento.
Hoje, proteína, creatina, fibras, colágeno e uma série de compostos aparecem não apenas em frascos e cápsulas, mas incorporados a iogurtes, bebidas, barrinhas, biscoitos e até sobremesas industrializadas.
O fenômeno reflete um mercado em expansão acelerada, impulsionado por forte investimento em publicidade, redes sociais e promessas de praticidade.
A ciência reconhece que alguns suplementos têm aplicação comprovada em situações específicas (a creatina, por exemplo, possui evidências consistentes para melhora de desempenho em exercícios de alta intensidade e apoio à manutenção de massa muscular em determinados grupos).
Mas isso está longe de significar que devam ser consumidos indistintamente por toda a população!
O que chama atenção é que, paralelamente ao crescimento desse setor, consolidou-se uma narrativa de que a alimentação cotidiana seria insuficiente para atender às necessidades nutricionais mais básicas. Esse discurso interessa a um mercado bilionário.
Estudos publicados em bases científicas internacionais mostram que a popularização dos suplementos está diretamente associada à influência do marketing, à construção de estilos de vida aspiracionais e à associação entre consumo e desempenho.
A lógica comercial passou a vender não apenas nutrientes, mas a ideia de que sempre falta algo — e que esse “algo” pode ser adquirido em pó, sachê ou cápsula. Em muitos casos, antes mesmo de existir uma necessidade clínica, já existe uma oferta pronta, embalada em linguagem de saúde e performance.
Recentemente, a própria indústria de alimentos percebeu nesse movimento uma oportunidade estratégica e passou a enriquecer produtos com proteínas, fibras e creatina, sugerindo que tais versões seriam automaticamente superiores.
Mas um alimento acrescido de determinado nutriente não deixa, por isso, de merecer análise crítica. Um biscoito com proteína continua podendo conter excesso de açúcar, aditivos e ingredientes ultraprocessados; uma bebida com creatina não substitui o valor nutricional de uma refeição equilibrada.
A literatura científica já discute esse avanço da suplementação incorporada aos alimentos como nova fronteira comercial. E isso exige atenção: transformar nutrientes em argumento de venda não equivale a promover melhor alimentação.
Nesse cenário, o papel da nutrição baseada em evidências torna-se ainda mais necessário. A exposição intensa na mídia — muitas vezes impulsionada por investimentos publicitários da própria indústria de alimentos e suplementos — ajuda a consolidar no senso comum a ideia de que produtos enriquecidos representam sempre escolhas melhores.
Saúde não se constrói por atalhos. O Guia Alimentar para a População Brasileira permanece atual ao lembrar que a base da alimentação saudável continua sendo alimentos in natura ou minimamente processados, variedade, preparo culinário e equilíbrio nas escolhas diárias.
Antes de seguir tendências, vale lembrar: muitas vezes, o essencial ainda está no prato — e não na prateleira.