Por um Trem Regional para Brasília

mmPor ,01/06/2018 às 11:37, Atualizado em 01/06/2018 às 11:37

A recente crise provocada pela greve dos caminhoneiros revelou com todas as nuances a dependência das cidades brasileiras do transporte rodoviário, seja ele de carga, seja de passageiros

A recente crise provocada pela greve dos caminhoneiros revelou com todas as nuances a dependência das cidades brasileiras do transporte rodoviário, seja ele de carga, seja de passageiros. O atrelamento de Brasília aos carros particulares é ainda mais gritante. Não por menos: numa cidade de três milhões de habitantes, os automóveis aqui registrados ultrapassaram a casa de 1,7 milhão de veículos.

Brasília é a terceira cidade do Brasil em população. São Paulo e Rio de Janeiro, que estão à frente, possuem pluralidade maior de modais – nome chique que os técnicos dão aos diferentes tipos de transporte. É maior a quantidade de ônibus, enquanto as redes de metrô, trem regional e mesmo de ciclovias se apresentam em melhor qualidade e maior quantidade.

Passou da hora de investir nos transportes sobre trilhos no DF. Desde o governo Arruda, a cidade desperdiçou oportunidades de custeio para a ampliação da rede de metrô. Em 2009, por meio do chamado Plano de Aceleração do Crescimento – PAC, foram ofertados os recursos suficientes para levar o metrô até o Setor O, na Ceilândia, e a Expansão de Samambaia, além de fazer chegar à Asa Norte, com uma estação próxima ao HRAN.

Os recursos alocados também bancariam a primeira etapa do VLT, ligando o aeroporto à estação Asa Sul do Metrô. Numa segunda etapa, entraria pela W-3. Ao todo, R$ 1,2 milhão, que foram reafirmados pelo PAC da Mobilidade e depois Pelo PAC da Copa.

Passaram-se os governos Arruda, Rosso, Agnelo e Rollemberg e nenhum centímetro de trilho foi colocado. Com a queda de Dilma, Temer acabou com a disponibilidade da verba e ficamos a pé.

 

Metrô do Gama

Nos anos 1990, três linhas de metrô foram projetadas pelo GDF. A atual –chegando até o final da Asa Norte -, uma ligando Ceilândia ao Gama e outra partindo do Gama, pela via EPIA, chegando à Rodoferroviária.

A Companhia do Metrô chegou a ter os recursos para tal obra, mas o governo Agnelo optou em usá-los para construir o BRT-Sul, ligando Santa Maria e Gama ao Plano Piloto. Deve ter sido a primeira obra no mundo de uma linha de ônibus construída por uma empresa de Metrô.

O projeto do BRT-Sul ficou incompleto. Faltou o trecho entre o Núcleo Bandeirante a Estação Asa Sul do Metrô, passando pela Candangolândia e Park Sul. Orçada inicialmente em R$ 587,4 milhões, a obra saiu por R$ 704,7 milhões, com um superfaturamento de 25%, aproximadamente R$ 208 milhões, segundo o Ministério Público. O BRT-Sul, como o Mané Garrincha, caiu na Operação Panatenaico da Polícia Federal. E a linha 2 do Metrô não saiu do papel.

 

Trem Regional

 

Na mesma época em que se iniciavam as obras do BRT-Sul, a Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) apresentou projeto de transformação da linha férrea da Extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA) em um trem regional.

O trajeto de 60 quilômetros, desde Luziânia, atende aos principais polos habitacionais da parte Sul do DF e Entorno. Seria beneficiada uma população superior a 500 mil habitantes.

A linha, hoje usada só por cargas, já passa pela Cidade Ocidental, Valparaiso, está próxima ao Novo Gama, Gama e Santa Maria, atravessa o Park Way, Núcleo Bandeirante, Guará, SIA, chegando à Rodoferroviária.

Nos cruzamentos com a linha do BRT-Sul, do Metrô, no Guará; e a EPTG, tornar-se-ia fácil a integração com ônibus e metrô. O custo de adaptação da linha, apontado à época pela Sudeco, era a metade do BRT-Sul – cerca de R$ 360 milhões.

Cada viagem do trem regional equivaleria a 15 viagens de ônibus. Centenas de carros particulares deixariam de circular.

 

Padre Cícero

VLT do Cariri

Forças ocultas, contudo, inviabilizaram o projeto. De pronto surgiram técnicos de plantão para apontar problemas: “O trajeto não é bom, a bitola não é adequada”…Mil argumentos para que não se materializasse.Esqueceram-se, contudo,de que, nessa mesma linha, até 1996, trafegou o trem Bandeirante, levando passageiros de Brasília a São Paulo.

Por fim, o Ceará calou a boca de todos que só encontram problemas e nunca veem solução. Em pleno sertão, um trecho de igual tamanho(60 Km), foi transformado no VLT do Cariri, que liga o Crato a Juazeiro do Norte. De quebra, ainda se pede uma benção ao Padre Cícero.

Passou da hora da linha do trem Bandeirante virar o Trem Regional do DF. É desumano obrigar as pessoas a perderem cerca de quatro horas de seu dia enlatadas em ônibus superlotados ou presas a engarrafamentos infindáveis. Soluções rodoviaristas, além de caras, mostram-se ineficientes ao longo dos anos.

Quatro anos se passaram desde a ampliação da EPIA Sul, para receber o BRT, e ela já apresenta engarrafamentos às quatro da manhã e às quatro da tarde.

Um novo governo está por chegar. É importante ter o compromisso das futuras autoridades em soluções mais eficientes, confortáveis, confiáveis e sustentáveis de mobilidade urbana.

O rodoviarismo, em todo o mundo, está com seus dias contados. Brasília não pode perder o trem da história.

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