Caroline Romeiro (*)
O Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) completa 50 anos neste mês de abril como uma das mais duradouras políticas públicas brasileiras voltadas à promoção da saúde no ambiente laboral.
Criado em 1976, em um país ainda marcado pela desnutrição e pela insegurança alimentar entre trabalhadores de baixa renda, o programa nasceu com uma missão clara: garantir acesso regular à alimentação adequada no cotidiano de trabalho.
Cinco décadas depois, o cenário brasileiro mudou — e isso exige que o PAT também evolua. Hoje, o principal desafio já não é apenas assegurar calorias, mas garantir qualidade nutricional diante de uma população cada vez mais exposta ao excesso de peso, às doenças crônicas e ao consumo crescente de alimentos ultraprocessados.
Pouca gente sabe, mas o nutricionista ocupa papel central nessa política pública. Nas modalidades em que há produção de refeições, o profissional é o responsável técnico pelo planejamento alimentar, definição de cardápios, adequação nutricional e acompanhamento das condições sanitárias, assegurando que o benefício cumpra sua finalidade de promover saúde — e não apenas saciar a fome.
Isto não é detalhe burocrático: é a garantia de que o investimento feito pelas empresas e pelo Estado resulte em alimentação de qualidade, alinhada às necessidades reais dos trabalhadores brasileiros. Afinal, alimentação coletiva é também política de prevenção em saúde.
A epidemiologia brasileira mudou profundamente desde a criação do PAT. Se há 50 anos a preocupação era combater déficits nutricionais importantes, hoje o País convive com alta prevalência de obesidade, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares entre adultos em idade produtiva.
Nesse contexto, discutir novos parâmetros nutricionais para o PAT deixou de ser apenas atualização normativa. Tornou-se uma necessidade sanitária. A composição das refeições ofertadas precisa dialogar com evidências atuais, reduzir excessos de sódio, açúcar e gorduras saturadas, ampliar alimentos in natura e considerar que saúde do trabalhador também se constrói no prato servido diariamente.
O debate que ganha força neste momento, inclusive com participação dos Ministério do Trabalho e Emprego e da Saúde, além de entidades técnicas, aponta justamente para esse futuro: um PAT mais moderno, mais inclusivo e mais coerente com o perfil de saúde da população brasileira.
Celebrar 50 anos do programa é reconhecer seu impacto histórico, mas também admitir que políticas públicas precisam acompanhar a realidade do país. E nesse processo, fortalecer a presença técnica do nutricionista não é opcional — é condição para que o PAT continue sendo, de fato, uma política de alimentação, saúde e dignidade no trabalho.
(*) Mestre em Nutrição Humana, coordenadora Técnica do Conselho Federal de Nutrição e docente do Curso de Nutrição da Universidade Católica de Brasília