O telefonema

bsbcapitalPor , Anna Ribeiro27/07/2021 às 8:00, Atualizado em 26/07/2021 às 17:32

Coisa grave nestes tempos em que ninguém ousa ligar sem antes mandar uma mensagem solicitando autorização

Um dia, sem aviso, você recebe um telefonema. Coisa grave nestes tempos em que ninguém ousa ligar sem antes mandar uma mensagem solicitando autorização. Só pode ser algo grave. E era. A morte chegou para ele. Mas ele já havia partido há muito tempo.

Será que ninguém havia percebido que o corpo estava perambulando solitário, sem alma, sem vontade, sem nada. Restavam apenas sinais que indicavam a proximidade da partida.

As pessoas choravam. Eu não. Não entendiam.

Eu chorei antes. Chorei quando ele caiu e quebrou a perna, quando começou a hemodiálise. Chorei quando ele perdeu a esposa. Os dias estavam nublados, fragmentados. E ele se foi.

Eu realmente não entendo. Nós morremos tantas e tantas vezes. Ensaiamos com empenho a nossa partida e não nos esmeramos naquilo que realmente importa.

Lutamos contra a finitude de uma maneira ou de outra. Mas, aceitamos com tanta subserviência as pequenas mortes. Entre a resignação e a desistência, a escolha. Quantas pequenas mortes até o fechar das cortinas?

É isso: lutamos contra o fim e não pelo meio. Viver é secundário, paralelo, coadjuvante. A razão maior é sempre evitar o sofrimento, não importando quanto sofrimento isto lhe cause.

Não importa o quanto você se cuide ou se abandone, você vai partir. Eu prefiro partir somente no momento final, mas a maioria se parte antes de partir. A gente vai se partindo aos poucos, rachaduras, fissuras, rasgos.

O problema só existe mesmo quando uma estrutura interna é atingida e nem sequer percebemos. Aí é mal de raiz. Melhor ir.

Na vida, a gente vai se rabiscando com marcas que nos lembram que estamos vivos e presentes. Aprendi cedo que as cicatrizes são boas. Elas contam a sua história e avalizam que você foi forte o suficiente para seguir adiante. Tenho uma queda pelas minhas cicatrizes; as sinto como minha grife pessoal.

Pegar a mala e partir é fácil. Difícil não é morrer, difícil é ficar. Derrubar muros é fácil. Difícil é edificar-se em meio a escombros.

Morrer é quebrar-se. Viver é tecer.

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