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Artigo

O preconceito linguístico

  • Elias Santana
  • 29/09/2018
  • 19:00

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Você certamente já ouviu falar sobre diversas formas de preconceito: contra negros, mulheres, homossexuais, nordestinos, venezuelanos. Todas essas formas de segregação têm algo em comum: as pessoas que as sofrem passam por isso em função de uma característica que é inerente ao indivíduo. Um negro não deixa de ser negro e uma mulher não deixa de ser mulher, por exemplo. Por isso, em nossa sociedade, surgem ações afirmativas a fim de combater cada uma dessas desigualdades.Todavia, há um preconceito que ainda não conseguiu alcançar o reconhecimento da nossa sociedade: o linguístico.

Vamos imaginar duas situações hipotéticas:

  1. Em uma roda de amigos, uma pessoa diz “pra que eu sejemais feliz, preciso passar em um concurso”. A informação em si é deixada de lado pelos receptores (apesar de ter sido compreendida por todos), e o assunto da conversa passa a ser o seje. As piadas começam. Além das piadas acerca da pronúncia, uma parece ser mais séria: “você quer passar onde mesmo com esse seje? Talvez, todos levem na brincadeira. Talvez, a amizade seja desfeita. Talvez, a pessoa desista do seu objetivo. Talvez…
  2. Um casal alfabetizado tardiamente (e você, leitor, pode, por sua conta, imaginar por que motivos uma pessoa só consegue aprender a ler e a escrever durante a fase adulta) resolve criar um comércio em casa, para melhorar a renda familiar. Criam um anúncio–vende-se doces. Os comentários começam. “Nesse doce não dá pra confiar”; “doce sem concordância não é pra mim”. O casal, então, desiste do comércio (e você, leitor, pode refletir sobre as suas desistências – e os motivos que te motivaram a tomar essa atitude).

Quando falo sobre esse assunto, só me lembro de um versículo: “Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?” (Mateus 7, 3). Faço uma pergunta: você sabe tudo sobre português? E já deixo a minha resposta: eu não sei.

Disfarçado em diversos mitos[1] – o brasileiro não sabe português; o português é muito difícil; a ascensão social depende do português –, o preconceito linguístico cresce de maneira assustadora, e me preocupa a falta de ações de combate a ele. Muitas pessoas ainda pensam, de maneira rasteira, que o que é certo, na fala e na escrita, está expresso nas gramáticas normativas, sem sequer observarem o contexto e a finalidade em que determinada comunicação foi produzida.

É equivocado pensar que só existe uma língua portuguesa! Todo falante é poliglota em sua língua materna. Há várias línguas portuguesas: a da conversa íntima, a da entrevista de emprego, a da redação para concursos. Ter consciência disso é o primeiro passo para se refazer a noção de erro.

Saiba: muitas pessoas perdem oportunidades ou desistem de algo em função do receio, medo ou vergonha de falar ou escrever, e isso não é bom para que, futuramente, essas pessoas possam ampliar (e não corrigir) o seu conhecimento acerca do português.

A linguagem é uma das características que nos diferenciam dos demais animais. Usemos, portanto, a nossa racionalidade em prol de uma sociedade mais justa.

[1] Apresentados na obra “Preconceito Linguístico”, de Marcos Bagno.

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