Projetos ambiciosos. Obras modernas. Milhões investidos. No Distrito Federal, espaços públicos que deveriam servir à população hoje estão fechados, vazios ou subutilizados. Levantamento do Brasília Capital traz detalhes de como essas estruturas, que custaram caro aos cofres públicos, se tornaram símbolos de desperdício, má-gestão e de oportunidades perdidas.
Os “microondas” da PM
Foto: Daniella Bazzi
Em 2008 e 2009, o então Governo do Distrito Federal criou 131 Postos Comunitários de Policiamento (PCS). O projeto inicial previa a implantação de 300 deles, que ficaram conhecidos como “micro-ondas da PM”, após incêndios recorrentes. À época, foram gastos R$ 18 milhões.
Ao anunciar o fim dos postinhos, em 2015, o chefe do Estado Maior da Polícia Militar do DF, coronel Marco Antônio Nunes, disse, na Câmara Legislativa, que os micro-ondas macularam o policiamento comunitário, que “é muito mais do que um posto físico: pressupõe mobilidade e interação com a população”.
Shopping Popular
Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília
O espaço construído em 2009, ao lado da antiga Rodoferroviária, tinha o objetivo de abrigar os camelôs do Setor Comercial e da plataforma superior da rodoviária do Plano Piloto. A obra custou R$ 12 milhões, mas nunca atraiu a clientela. Anos depois, órgãos públicos foram instalados no local, como o Detran e o BRB. O banco fechou a agência por falta de movimento.
Em 2024, a Câmara Legislativa do DF ainda discutia o que fazer no espaço. O presidente da Associação dos Feirantes do Shopping Popular, Gil Ramalho, pediu aos parlamentares que trabalhassem pela manutenção do Detran no local: “A permanência do Detran é muito importante para o movimento do shopping. Durante a semana há algum movimento trazido pelo Detran, mas aos sábados não há movimento nenhum”, observou.
Ônibus com porta do lado errado
Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília
Seria cômico, se não fosse trágico. As obras na Estrada Parque Taguatinga (EPTG), iniciadas em 2009, foram concluídas somente em 2019, ao custo de R$ 244 milhões. Em 2011, o Tribunal de Contas do DF apresentou uma lista de irregularidades que comprometiam a durabilidade da via e a segurança dos usuários.
Além de todas as questões de infraestrutura, os ônibus teriam de ter portas ao lado esquerdo, quando normalmente eram à direita. Os primeiros 10 veículos adaptados para a nova EPTG chegaram ao Distrito Federal somente em 11 de dezembro de 2019, com capacidade menor de passageiros, por terem portas em ambos os lados (foto).
Centrad
O Centro Administrativo do DF (Centrad), entre Taguatinga, Ceilândia e Samambaia, está fechado há mais de 12 anos. Com 182 mil metros quadrados de área construída, o complexo de 18 prédios foi idealizado pelos gestores à época com o objetivo de descentralizar órgãos do GDF.
A obra bilionária, executada por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP), nunca chegou a ser ocupada. Além da construção, o acordo previa que as empresas fossem responsáveis pela manutenção, segurança e limpeza do espaço, com pagamento de cerca de R$ 17 milhões mensais.
Como o Centrad nunca entrou em funcionamento, os repasses não foram realizados, e a PPP foi oficialmente anulada em 2022. Desde então, o GDF passou a arcar apenas com os custos de segurança do local, que enfrenta recorrentes casos de invasão, vandalismo e depredação. Uma conta que já vem sendo paga pela população do Distrito Federal.