Orlando Pontes
Relatora da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida pela Rede Sustentabilidade pedindo a suspensão de trechos da nova lei que limitam o tempo máximo de inelegibilidade a 12 anos, mesmo em caso de várias condenações, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), passou a ser figura central nas eleições do Distrito Federal em 2026.
A decisão da magistrada colocará um ponto final na discussão sobre a possibilidade de o ex-governador José Roberto Arruda (PSD), cassado em 2010 por liderar o escândalo da Caixa de Pandora, concorrer ao Palácio do Buriti, como ele vem cogitando nos últimos meses.
De acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), Arruda permanece inelegível. Manifestação neste sentido já foi encaminhada ao Supremo, com parecer contrário a alterações recentes na Lei da Ficha Limpa que poderiam beneficiar o ex-governador.
A PGR entende que as mudanças enfraquecem a proteção da moralidade administrativa, já que a norma “iguala agentes responsabilizados uma única vez àqueles que sofreram diversas e mais graves condenações” (caso de Arruda), configurando violação à Constituição.
CONDENADO – O ex-governador foi condenado em pelo menos cinco ações de improbidade administrativa no âmbito da Operação Caixa de Pandora. E, com base na nova lei, estaria apto a disputar as eleições de 2026, já que sua primeira condenação ocorreu em 2014.
No entanto, em outubro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve, por unanimidade, sua inelegibilidade até 2032, ao rejeitar recurso da defesa.
EM CAMPANHA – Mesmo com este quadro de indefinição, Arruda está nas ruas e nas redes sociais tentando convencer pessoas de que é inocente, e mesmo que tenha sido condenado, como de fato o foi várias vezes, já teria cumprido sua pena.
Aposentado e gozando de boa saúde, Arruda acorda cedo todos os dias e percorre os mais diversos pontos do DF para cumprimentar eleitores, embora, não raro, se depare com algumas hostilidades por parte daqueles que se lembram das cenas dele recebendo maços de dinheiro de Durval Barbosa, delator do escândalo de 2009/2010.
Nos bastidores, tenta atrair aliados. Depois de se filiar ao PSD, com as bênçãos do presidente nacional Gilberto Kassab, tenta convencer o comandante da legenda no DF, Paulo Octavio, a embarcar em sua canoa.
Mas PO já avisou que seu projeto é eleger o filho, André Kubistchek, atual secretário da Juventude do GDF, que concorrerá a deputado (distrital ou federal) em outubro. Assim, a família deverá apoiar a vice-governadora Celina Leão (PP), que vai encabeçar a chapa do grupo do governador Ibaneis Rocha (MDB), pré-candidato ao Senado.
REJEIÇÃO – Arruda ainda tem contra si altos índices de rejeição, exatamente por constar da lista de políticos identificados pelo eleitorado como comprovadamente corruptos. Até agora, sua pré-campanha não tem recebido ataques dos adversários – exceto de Ibaneis – porque todos esperam herdar seus votos como opositores ao atual governo.
O presidente do Partido Verde, Eduardo Brandão, que foi secretário do Meio Ambiente na gestão Arruda (2007-2010) e hoje faz parte da Federação com o PT e o PCdoB, aposta que a tendência é de que Arruda continuará inelegível. E para que Leandro Grass (PT) derrote Celina, terá de captar os eleitores do pandorista. “Precisamos crescer para o centro para derrotar o atual governo”, considera.
Indiferente aos percalços, o ex-governador avança até na busca de formar uma chapa competitiva. Nas reuniões de que participa, faz alusão ao interesse de ter a deputada distrital Paula Belmonte (PSDB) como sua vice. A tucana até confirma que ele a sondou. “É bom ser lembrada. Mas desde o primeiro momento declinei do convite. Sou candidata ao governo. Não tem outra opção”, descarta.
Assim, resta a Arruda, que em duas ocasiões foi preso por corrupção, continuar buscando reunir velhos aliados que, como ele, tiveram sérias encrencas com a Justiça. Entre eles, o ex-senador Gim Argello, hoje presidente do Avante, que ficou durante três anos atrás das grades em Curitiba por participação no escândalo da Lava Jato. Como votas, ministra Cármen Lúcia?