Tersandro Vilela (*)
Em Brasília, a inteligência artificial deixou de ser um conceito distante para ocupar o dia a dia de quem precisa lidar com o Estado. Em 2025, sistemas automatizados passaram a responder dúvidas, organizar filas virtuais, classificar pedidos e acelerar análises que antes levavam semanas. Para a sociedade, a promessa é menos espera, mais acesso e serviços públicos mais previsíveis.
Na prática, a IA já aparece quando o cidadão busca informações previdenciárias, acompanha processos administrativos ou tenta entender uma norma que mudou. Chatbots institucionais, treinados com bases oficiais, passaram a traduzir o “juridiquês” em linguagem comum, reduzindo a dependência de intermediários e ampliando o acesso à informação pública.
O avanço, no entanto, não ocorre sem tensões. Organizações da sociedade civil e especialistas em direitos digitais alertam para riscos de exclusão, vieses algorítmicos e uso inadequado de dados pessoais. Se mal implementados, sistemas automatizados podem reforçar desigualdades, negar benefícios de forma opaca ou produzir respostas imprecisas com aparência de autoridade. Por isso, 2025 também foi marcado por debates sobre transparência, explicabilidade e direito à contestação de decisões mediadas por algoritmos.
Brasília concentra esse embate porque é ali que se decidem as regras do jogo. Ao longo do ano, o governo federal divulgou diretrizes para o uso responsável da inteligência artificial no setor público, defendendo que a tecnologia seja instrumento de apoio e não substituição da decisão humana.
DESAFIO – Para a população, a IA começa a redefinir expectativas. Se um sistema pode responder em segundos, por que esperar meses? Se dados podem ser cruzados automaticamente, por que repetir documentos?
A pressão social por serviços mais inteligentes tende a crescer em 2026, ao mesmo tempo em que aumenta a cobrança por garantias éticas. Na capital do poder, a inteligência artificial entrou definitivamente na vida comum. O desafio agora é fazer com que ela aproxime o Estado das pessoas e não crie uma nova distância, invisível e algorítmica, entre quem decide e quem é afetado pelas decisões.
(*) Jornalista pós-graduado em Filosofia, especialista em Liderança: gestão, resultados e engajamento, e mestrando em Inovação, Comunicação e Economia Criativa