Cecília Garcia (*)
No início do século XX, Henriette Negrin desenvolveu uma técnica de plissado manual que jamais foi replicada com perfeição. O método foi usado na criação do vestido Delphos, inspirado pela estátua grega “O cocheiro de Delfos”, encontrada em 1876.
O mistério já começa com a autoria da peça. A patente do vestido foi registrada pelo marido da artista, motivo que levou muitos a acreditarem, inicialmente, que o design era de sua autoria. Contudo, pesquisas mais recentes revelaram que a requisição foi feita por Mariano Fortuny em nome da esposa, e não revelou por completo o processo usado na produção da peça.
Conhecida como “plissado impossível”, a técnica desenvolvida por Henriette envolvia o uso de pregas onduladas na vertical e horizontal, com acabamento perfeito tanto do lado direito quanto do avesso. Para produzir um Delphos, eram usados de quatro a cinco painéis retangulares de seda, sendo que cada um deles continha mais de 400 micropregas.
Esse plissado, por sua vez, conferia elasticidade ao tecido. Tal característica, aliada aos ajustes realizados nas mangas e decote feitos por meio de cordões aparentes e escondidos, fazia com que o vestido fosse considerado “tamanho único”, ou seja, era ajustável a diferentes tipos de corpos. Algo raro para a época.
O trabalho era tão intrincado que fazia da vestimenta algo frágil, que precisava ser guardada como um novelo dentro de uma pequena caixa com cerca de 23 cm de diâmetro.
Após a morte de Mariano, em 1949, não houve mais a produção do Delphos. E disso nasceu o mistério, já que muitos acreditavam que ele, e não Henriette, era a mente criativa por trás do vestido.
Ao longo dos anos, muitas teorias surgiram para tentar recriar o plissado original, mas sem sucesso. Uma delas foi a testada por Lian Kanda, em 2024. O pesquisador partiu de relatos de antigos funcionários do casal e obteve um resultado muito próximo à peça original, mas ainda imperfeita.
De acordo com os registros deixados pelos trabalhadores, o tecido do Delphos era tingido e preguiado manualmente, com o uso de agulha e linha de seda. Após esse processo, a peça era amarrada em torno de uma serpentina de bronze, molhada e aquecida, de modo a fixar as pregas.
Ou seja, não é apenas o plissado, mas também o tingimento que torna o vestido algo impressionante, apesar de não constituir um mistério.
Para a obtenção de cores únicas, a seda era tingida manualmente e sucessivamente, de modo a reproduzir o reflexo dos canais de Veneza, com seus tons de azul, verde, dourado e vermelho.
O Delphos foi uma revolução em sua época em vários sentidos. Foi concebido como um vestido de chá informal para ser usado apenas em casa. Por isso, não exigia que fossem usados espartilhos ou enchimentos, permitindo mais conforto e naturalidade para as mulheres.
Considerado como “escandaloso” por seu formato fluido, foi inicialmente rejeitado pela alta sociedade, tendo como suas primeiras clientes aquelas que viviam à margem das regras sociais, como as artistas Greta Garbo, Lillian Gish e Dolores del Rio.
(*) Jornalista | Mestre em Comunicação