O Agro não tem pátria

Julio MiragayaPor ,22/01/2021 às 9:00, Atualizado em 22/01/2021 às 8:35

“O Agro é tech, é pop, é tudo”. Os ruralistas posam de patriotas, desfilando com a amarelinha do Neymar, mas se lixam para a alimentação do povo brasileiro

Poderia tratar aqui da gestão sanitária irresponsável do desgoverno Bolsonaro, que, após postergar o início da vacinação, é incapaz de garantir os insumos para as vacinas e condena à morte milhares de hospitalizados no Norte por falta de oxigênio. Mas, como há muitos analistas tratando disso, vou retornar à pauta econômica e abordar um tema também muito caro aos brasileiros: a alimentação.

A propaganda dos grandes produtores rurais na TV afirma que “o Agro é tech, é pop, é tudo”, mas esqueceu-se de dizer que o Agronegócio não tem pátria. Sim, os ruralistas posam de patriotas, desfilando com a amarelinha do Neymar, mas se lixam para a alimentação do povo brasileiro.

Por mais um ano, a expansão agrícola no Brasil permaneceu limitada aos produtos em que o País lidera as exportações mundiais (soja, milho, açúcar, laranja, café, carne bovina e de frango), enquanto os produtos que compõem a cesta básica têm a produção estagnada há anos.

Concentrando a maior parte das terras cultiváveis e focado exclusivamente no lucro, o agronegócio especializou-se nas culturas forrageiras, a maior parte exportada. A área cultivada com soja, de 1980 a 2020, cresceu de 8,77 milhões para 37 milhões de hectares, e a produção aumentou de 15,1 milhões para 121,5 milhões de toneladas (aumento de 705%). 

Já a área de milho, cresceu de 11,4 milhões para 18,3 milhões de hectares e a produção subiu de 20,4 milhões para 103,2 milhões de toneladas (aumento de 406%). Também a área cultivada com cana-de-açúcar aumentou de 2,6 milhões para 9 milhões de hectares e a produção saltou de 148,7 milhões para 690 milhões de toneladas (aumento de 364%).

De outro lado, a área plantada com arroz entre 1980 e 2020 caiu de 6,2 milhões para 1,7 milhão de hectares e a de feijão de 4,64 milhões para 2,68 milhões. Devido ao aumento da produtividade, a produção de arroz teve leve aumento (13%), de 9,8 milhões para 11,1 milhões de toneladas, e a de feijão cresceu 45%, de 2 milhões para 2,9 milhões de toneladas, muito inferior ao crescimento da população no período (80%). 

Se compararmos 2020 com 1960, enquanto a população brasileira cresceu 203%, a produção de arroz cresceu 130% e a de feijão 67%. No caso da mandioca, houve redução na área plantada (de 2,02 para 1,27 milhão de hectares) e na produção (de 23,5 para 19 milhões de toneladas). E estagnada em torno de 6,7 milhões de toneladas está a produção de banana,desde 1980.

Em função da escassa produção, esses e outros produtos que compõem a cesta básica tiveram aumentos excepcionais em 2020 (arroz, 76%; feijão, 45%; banana, 40%; batata, 67%; tomate, 52%). E pior, pressionados pelos preços de exportação, alguns produtos tiveram forte aumento no mercado interno (óleo de soja, 104%, carne bovina, 18%), leite (27%) e manteiga (25%), todos compondo a cesta básica do trabalhador.

Tivesse a agricultura familiar a metade das vantagens concedidas ao agronegócio, a oferta de alimentos ao povo certamente seria muito maior.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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